Mulheres a lerem as notícias

Sei o que mundo fez na semana passada | As notícias internacionais de 21 a 27 de Abril

Há muita coisa estranha a passar-se no mundo, se não acreditas, olha para esta revista das notícias internacionais que te interessam enquanto feminista. Desde exemplos negativos e positivos no póquer até ao comentário de uma mulher sobre a política e  os comentários de um político sobre uma mulher, esta semana não faltou agitação no mundo.

Um jogador de póquer e um milagre

Ao que parece para certas pessoas neste mundo, uma mulher e uma bola de praia têm poucas  diferenças. Para começar pode pegar-se no exemplo do infame e famoso bilionário jogador de póquer Dan Bilzerian, proclamado pela Internet como “the instagram playboy” pelos seus gostos entre mulheres nuas, carros rápidos e armas de grande calibre, uma espécie de super-herói para a bro culture. Como na vida, se não se der uma chamazinha, tudo se torna aborrecido este indivíduo decidiu que era uma boa ideia pagar a Janice Griffith, uma actriz de pornografia, para a atirar do telhado de sua casa para a piscina. O resultado? Um milagre: um pé partido e uns trabalhos que ficou impossibilitada de fazer. Que a actriz concordou em aceitar o malabarismo já foi mais ou menos provado, mas isso não impossibilita de se olhar para isto e perguntar que raio de pessoa (nem interessa o género) é que se lembra de uma coisa destas.

Ela joga para ganhar. E ganhou, duas vezes.

Mas se se fala de póquer acerca de Bilzerian, também terá de se falar do caso da britânica Victoria Coren Mitchell, a jornalista, jogadora de póquer profissional e a primeira mulher a vencer o European Poker Tour. Duas vezes. Tornando-se assim a primeira pessoa na história do torneio a vencê-lo duas vezes. Em entrevista à Times, Victoria conta como é subir num cenário marcadamente masculinizado com situações normais onde “num torneio com 97 concorrentes, apenas três eram mulheres”.

Quando não há Relações Pública que salve a coisa

E já que se fala de jornalistas pode falar-se já agora do caso da jornalista russa que ao fazer uma pergunta incómoda a Vladimir Zhironovsky, deputado pelo partido liberal (really???) russo, recebeu como resposta ordens do deputado para os seus seguranças a violassem e beijassem. Entre as caras de espanto dos seguranças, assim como do resto de jornalistas que assistiam ao desenrolar de acontecimentos, e a intervenção por parte de uma colega jornalista que fez notar que a primeira estava grávida, Zhironovsky gritava furiosamente. Chamando a segunda jornalista de lésbica por defender a colega e acusando a primeira de irresponsabilidade, tendo como frase qualquer coisa como isto: “Se está grávida não deveria estar aqui. Estás grávida? Vai para casa. E tu porque estás a defendê-la, sua lésbica?. Político exemplar!

Porque cometeram o crime de nascer meninas

Continuando a falar de política. Segundo a Aljazeera ainda estão por encontrar 85 das 129 estudantes raptadas de uma escola secundária em  Chibok, Borno no nordeste da Nigéria. Acredita-se que os autores do rapto fazem parte do grupo terrorista Boko Haram, nome que traduzido significa algo como “A educação Ocidental é proibida“. Este grupo de influência islamita tem realizado ataques em escolas e universidades, assim como em edifícios governamentais como forma de minar o poder de um governo que diz estar a esquecer o Islão. Mesmo esquecendo a questão religiosa, que malucxs há-xs em todo o lado, quem acaba por ser vitima nestas situações são as jovens mulheres e crianças que não a fazer mais que tentar ter uma educação para construírem um futuro melhor.

Uma mensagem de esperança e de visibilidade

E é sobre esse desequilíbrio de poder, essa injustiça de estar às mãos de outrxs que decidem o nosso destino, que Lupita Nyong’o, vencedora de um óscar (no Melhor Filme, “12 Anos Escravo”) de Melhor Actriz Secundária, modelo e estrela da passadeira vermelha falou quando foi considerada a “Mulher Mais Bonita de 2014” pela Revista People. A actriz, como sempre tem feito, ao dar a sua resposta aos media, deu também uma lição de humildade dizendo que a sua esperança é que ao ser estandarte da beleza da mulher negra sirva de exemplo às meninas que crescem com dúvidas sobre a qualidade da sua identidade. Nas suas palavras depois de receber a notícia que tinha sido escolhida para a lista, criada à 25 anos, da Revista People:

I was happy for all the girls who would see me on [it] and feel a little more seen.

Mas não é a primeira vez que Lupita deixa uma jóia de sabedoria que faz calar muita gente. Aquando da recepção do Óscar de Melhor Actriz Secundária, a mexicana nascida queniana disse:

I look down at this golden statue, and may it remind me and every little child that no matter where you’re from, your dreams are valid.

Quando um pesadelo dura uma vida

E era bom que isto se concretizasse, especialmente segundo uma notícia partilhada pelo site noticioso News Africa, que reporta os dados de um estudo realizado entre as trabalhadoras do sexo nigerianas em Itália, estudo esse que concluiu, sem surpresa, que das mais de 1000 entrevistadas (um número pouco representativo desta demografia), nenhuma delas entrou em Itália de livre vontade, estando sob o jugo de redes de tráfico de seres humanos, que pedem o valor, exorbitante, de 80.000 euros para lhes concederem a liberdade.

O estudo conseguiu ainda perceber que nos últimos anos mais de 500 jovens nigerianas a prostituir-se em Itália morreram vitimas de violência e de condições de vida deploráveis. Outro facto interessante desta notícia é que o estudo foi realizado pela única associação de apoio às vitimas de tráfico humano, dirigida por vitimas e ex-vitimas, em Itália, a Association of Benin City Girls.

Há pessoas que não percebem limites.

E se o sonho de Lupita, e o nosso, se realizasse, talvez as mulheres na cultura e na arte fossem mais independentes e mais livres de opressões. Que o diga Iggy Azalea, a rapper australiana que explicou, em entrevista à estação de rádio nova-iorquina Hot 97, qual a razão para ter deixado de fazer crowd surfing nos seus concertos. E, obviamente, a razão é perturbante: segundo a cantora, isto teve de acontecer, porque as pessoas nos seus concertos tentavam penetrá-la (nos genitais) com os dedos. Em que raio de mundo é que vivemos em que, homens e mulheres, fazem isto e ainda postam no Twitter que estão mortinhos por o fazer no próximo concerto?

I will get lurk tweets for like a week before my show, like ‘I’m about to go to the Iggy Azalea show and I’m going to finger her,’ and I’ll see it and be like, please don’t!,” she said. “That’s a violation. I don’t actually like that stuff.”

“Like, they think I’m real slutty, like ‘Oh, she got a song called ‘Pu$$y,’ I know what she wants. She wants these two fingers.’ Why would I want a stranger to ever finger me?” Azalea said. “Buying my album for $12 doesn’t mean you get to finger me when I come to your city.”

A rapper de 23 anos diz que ficou espantada como também as mulheres o fazem e acham que é divertido e sem problemas – lá se vai a sisterhood. Como protecção a artista agora usa duas peças de roupa interior e ainda uns collants sobre o seu outfit de espectáculo. É mais do que um “bocadinho” injusto que seja Iggy a usar esta protecção adicional.

Porque mamas + fatos = vendas

E se Iggy Azalea agora tem que vestir mais roupa, por desrespeito pela sua privacidade e sexualidade, é também por desrespeito à inteligência dos consumidores que a marca holandesa de roupa para homem Suits Supply, ofereceu um dos momentos mais sexistas da publicidade dos últimos tempos. Mas, a sério, sexista ao nível do “Blurred Lines” do Robin Thicke.

A marca, com lojas nos Estados Unidos, achou, como já tem feito noutras campanhas que a melhor forma de vender fatos para homem seria colocar um exército de mulheres semi-nuas e molhadas a ladear aquele item que na verdade a loja vende: fatos! Porque, os santos da publicidade o proíbam, nunca será possível vender algo que seja para homens (os heteros claro que esses é que são homens a sério, os outros, os maricas, esses não contam #IronyModeOff) sem que haja a alguma parte do corpo feminino encostado a esse produto.

Eres gay? no hay problema!

Por falar em homens verdadeiros. Segundo um estudo do Pew Research Center, entre os 40 países que fizeram parte da investigação, que tentou compreender de que forma certos países vêem questões socialmente fracturantes do ponto de vista moral, nuestrxs vecinxs de Espanha foram consideradxs como xs mais amigáveis da comunidade LGBT. 

O estudo baseado em perguntas que se estendiam entre temas tão diferentes, mas moralmente abordáveis, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o jogo legalizado, sexo extra e ante conjugal, entre uma miríade de outras coisas, conclui-o que Espanha é o país com menor percentagem (6%) dos entrevistados a afirmar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é moralmente inaceitável.

E este é um dado importante de notar, sendo que República Checa teve uma maior percentagem a que disse ser aceitável (56% contra os 55% da Espanha), mas teve também um maior número (14%) de respostas que consideram um assunto moralmente inaceitável. Sem muito espanto o Gana e a Rússia têm números avassaladores no que toca ao moralmente inaceitável, sendo 98% e 72%, respectivamente, os valores destes países.

É ainda de notar que a Parada Pride Mundial se vai realizar nesta cidade em 2017.

Por esta semana foram estas as notícias. Para a semana que vem mais te traremos.

Quais sãos as que achas que deixámos passar e que deviam estar nesta lista?

Tiago Alves Silva

Tiago Alves Silva

Editor e Escritor at O Clítoris da Razão
Procura “ser mais que perfeito, maior que imaginação” na busca por um mundo mais igualitário, é por isso que faz parte da equipa d’ O Clítoris da Razão.

Nasceu entre o mar e a cidade, Mafra o viu crescer.

Tem uma relação quase romântica com artes visuais, especialmente fotografia e vídeo.

Gosta de tecnologia, direitos humanos e política.
Tiago Alves Silva

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