Dois limões em férias, 1983, óleo sobre tela, 97,5 x 128,5 cm

Mulher também é (da) ilha

Sou mulher e açoriana (por esta ordem de relevância).
Fui para a faculdade ainda com 17 anos e fui precoce no términos dos estudos. Licenciei-me em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto e vivi com afinco os loucos anos de estudante.


Três anos depois escolhi fazer o estágio curricular na minha ilha – a Terceira – com o objetivo de ir integrando mais facilmente os meios de comunicação social da região. O meu estágio aconteceria em Março de 2009, por opção: tinha escolhido fazê-lo na última fase da minha formação, no ano letivo reservado ao estágio.
Passei o verão de 2008 na ilha, como passava todos os verões. Mas aquele verão foi diferente. Comecei a colaborar com um programa de TV numa produtora externa onde eu era repórter de um programa de “social life”. No final do verão, com o intuito de ocupar os meses “em branco”, decidi tirar a carta de condução, e por isso fui à minha médica de família para aquisição do pedido atestado de aptidão. Ela perguntou-me se precisava de mais alguma coisa, pedi a pílula (método contraceptivo que ainda não usava – talvez o único – mesmo sendo o preferido da maioria das mulheres). A médica receitou-a, e indicou-me que eu tinha que aguardar a menstruação seguinte para iniciar a toma.
A menstruação tardava em chegar.
Não chegou.

Fiz um teste de gravidez da farmácia que foi assustadoramente rápido e claro: estava grávida! Aquelas duas linhas vermelhas hão-de fazer parte da minha memória fotográfica até ao fim dos meus dias.
O bebé nasceria para o final do estágio. Entrei em pânico. Este bebé iria trocar-me todas as voltas da minha já delineada vida nos primeiros tempo e, ainda por cima, já não estava com o pai do meu filho: havíamos terminado umas semanas antes por eu decidir voltar aos Açores e ele continuar o curso no Porto. Mesmo assim, o estágio preocupava-me mais do que ser “mãe solteira” pois, em criança, dizia que tinha o sonho da maternidade e que se o “príncipe” não aparecesse haveria de recorrer a um banco de esperma. Já não tinha que me preocupar com isso.

Após o choque inicial desta descoberta embarquei para o Porto para ter uma consulta de ginecologia no Hospital Pedro Hispano, antecipando a minha passagem já marcada há meses tal era a quantidade e urgência de decisões a tomar. Foram as horas mais longas da minha vida. Dois dias depois tinha a confirmação: naquela ecografia estava o meu destino: um bébé, já com 4 meses de gestação! A esperança de equívoco durou segundos:
“Mas eu tive a menstruação nos últimos 3 meses! Só não veio agora! Como é que estou grávida desse tempo todo?!”
“Não é assim tão raro isto acontecer. A senhora vai ser mãe. Pode ir escolhendo um nome para o seu bébé!”
Aquelas palavras derrubaram o meu mundo.
Chorei, durante alguns minutos, com todas as minhas forças. Com toda a minha revolta. O médico, na tentativa de me acalmar, adiantou “esse bebé tem que nascer, já não pode abortar legalmente, mas existem alternativas. Há imensas famílias que desejam muito uma criança”. E foi aí que fiz click:
“Este bebé é meu, e não vou dá-lo a ninguém!”
O médico estava apenas a fazer-me ver todas as opções, mas a minha reação mostrou-me que, apesar de não ser no timming desejado, eu estava a ter aquilo com que desejava: ser mãe. A ideia de fazer um aborto clandestinamente assustava-me demais. E se alguma coisa não fosse feita devidamente? E se eu ficasse eternamente impedida de concretizar essa vontade de infância de ser mãe?

Foi aí que tomei a maior decisão da minha vida: assumir o Rafael. Ia precisar de facto de um anjo para comunicar aos meus pais e ficou assim decidido o nome, com conhecimento do pai do bebé que respeitou e consentiu a decisão.
A minha mãe foi a primeira a saber. Apesar de não concordar com o aborto em situações de saúde de mãe e feto, disse-me “Não faças nada que te possas arrepender. Estou aqui para te ajudar em qualquer que seja a tua decisão.”.
Depois foi altura de contar ao meu pai. Teria de lhe dar duas más notícias: a de que ia ser mãe, e que não pretendia reatar com o pai do bebé. No fundo ia ser “mãe solteira”, por opção, com 21 anos, antes sequer de concluir o estágio final de curso, numa comunidade onde o modelo de vida comum é o tradicional – pai, mãe, bébé. A reacção do meu pai é a única coisa que quero omitir deste artigo e, na verdade, do meu pensamento para a vida. Mas o velho Ourique habituou-se depressa à ideia de ser avô e consegui ter alguma paz no final da gestação.
A boa notícia era que o Rafa nascia em janeiro, dois meses antes do estágio, logo eu não precisava de travar os meus planos. Fiz a carta de condução. Fiquei habilitada a 13 de novembro e a 15 de dezembro o Rafael decidiu ser a minha eterna melhor prenda de Natal.
Comecei de imediato a trabalhar para as fraldas e leite em pó pois cedo vi que não podia contar com o meu ex-namorado: para ele, ser pai e assumir um filho era dar um apelido.
Em março comecei o estágio. Agora, com um filho, e a estagiar a 20 km de casa, precisava de dinheiro para o bebé e para gasolina. Comecei, por isso, a servir à mesa no Clube de Golfe da ilha nos fins-de-semana para poder estagiar durante a semana na RTP-Açores. Foi um ano muito duro. Além da pouca atenção ao Rafa, chegaram alguns problemas de saúde derivados do excesso de trabalho. Tinha a sorte do suporte familiar ser o melhor: a minha mãe não trabalha e o meu pai trabalha um dia e folga dois. Não fui nem sou a mãe mais presente que gostaria de ser. Não dei a atenção que queria dar ao Rafael. Mas é o preço a pagar pela decisão de criar um filho sozinha aos 21 anos. A minha carreira foi melhorando e, apesar de nunca conseguir estabilidade financeira só com um trabalho, fui trilhando o meu caminho profissional numa boa direção.
As pessoas começaram a ver-me com maior credibilidade por ter demonstrado ser competente profissionalmente. Mas mesmo assim não me livrava do rótulo de “mãe solteira” e que “não dá a devida atenção ao filho”. Sou uma jornalista competente mas uma mãe mais ausente, e o meu filho é uma criança que vê a mãe na TV e baba de orgulho. Isso, por si só, devia ser suficiente. Mas a mãe “deixa-o muitas vezes com os avós”, avós que por acaso educam-no de forma competente e têm total disponibilidade para o neto.
Sinto que já consegui cimentar a minha imagem profissional. Mas sinto também que, como mulher, que continuo a ser a inconsequente que não quis ficar com o pai do seu filho e entretanto já andou com mais dois namorados. Gostava de fazer ver que a profissional exigente é, também, a mãe e a mulher que ainda não conquistou o devido respeito. E que não há nada de errado em deixar que os avós cuidem tão bem dos nossos filhos enquanto nos dedicamos à vida profissional.

Este é um pequeno relato de 6 anos como mulher-mãe-jornalista-insular. Muitos murros no estômago ficaram por contar. Muitas situações de discriminação poderia escrever. Mas acho que todxs conseguimos perceber que não são escolhas bem vistas aos olhos de uma ilha com um pensamento tradicional e patriarcal.
Estas foram as minhas escolhas e, adivinhem: sou imensamente feliz com todas elas. Tenho como dia-a-dia a maior tempestade no mar, mas sou muito mais feliz do que quem escolheu o mar calmo, desprazeroso, de quem se molda preso nas formas de uma sociedade que insiste em ficar nas mesmas águas paradas.
Sou ilha com o nome de “mulher-mãe-jornalista”.
Mas ilha sem limites ou fronteiras.

Imagem: António Dacosta, Dois limões em férias, 1983, óleo sobre tela, 97,5 x 128,5 

Tatiana Ourique

Tatiana Ourique

Uma mulher, mãe e jornalista (por esta ordem decrescente de prioridade) cujo objetivo é ser e fazer o filho feliz. Nem que para isso seja preciso (e é quase sempre) contrariar uma sociedadecom muitos passos evolutivos por dar.
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