Viktoria Modesta

Deficiência e feminismo intersecional

A interseção da deficiência com o feminismo é um assunto complexo e muitas vezes ignorado dentro do próprio movimento feminista. Pior do que isso, mulheres com deficiência são muitas vezes excluídas de espaços ditos feministas. Estas barreiras, quer sejam elas físicas ou refletoras de estereótipos condicionam a entrada de um dos grupos mais vulneráveis na nossa sociedade num movimento que idealmente seria um espaço seguro.

Historicamente, a deficiência é vista como um problema individual, relacionado com incapacidades corporais; como questão individual, despolitizada, a deficiência é assim vista como algo a ser tratado, curado ou eliminado.

Respondendo aos problemas inerentes a este modelo, surgiu nos anos 60 o modelo social da deficiência, que aborda o tema de forma inversa: as barreiras colocadas às pessoas com qualquer tipo de incapacidade provêm não das suas incapacidades (individuais, biológicas e corporais) mas de obstáculos ideológicos, sociais e institucionais – um meio que não considera as necessidades de todxs. Neste sentido, o próprio conceito de “deficiência” enquanto construção social apresenta-se como um diferenciador entre o “nós” e xs “outrxs“, estabelecendo assim uma ferramenta de opressão e de exclusão semelhante ao sexismo ou ao racismo. Esta exclusão é feita também em termos capitalistas, já que se associa o valor da pessoa ao valor que essa pessoa será capaz de produzir, sendo por isso as pessoas com deficiência consideradas um encargo, já que não são capazes de produzir o lucro desejado.

Finalmente, o modelo relacional, partindo de uma perspetiva feminista, combina aspetos sociais com as experiências individuais, podendo assim ir mais longe do que o modelo social em áreas intrínsecas à experiência corporal de pessoas com deficiência, como por exemplo, a sexualidade. Estes dois últimos modelos recentram assim a responsabilidade na sociedade, que ao ignorar parte da população a exclui de atividades ditas “normais”; o indivíduo com deficiência é portanto uma pessoa com algum tipo de incapacidade numa sociedade deficientizadora.

O entendimento da deficiência deve ser feito no sentido de expandir a nossa perceção de diversidade e identidade. Como apontado por Rosemarie, todxs iremos experienciar incapacidade a algum ponto da nossa vida, quer em nós próprixs, quer nas nossas famílias.  De acordo com a autora, a deficiência caracteriza-se por um sistema de interpretação e disciplinação para variações corporais, a relação entre os corpos e o seu ambiente, o conjunto de práticas produzidas por pessoas com e sem incapacidade e uma forma de descrever a instabilidade inerente ao nosso corpo. A deficiência como construção social constitui então um mecanismo de exclusão por apontar alguns corpos como errados, inadequados e inferiores, semelhante ao que aconteceu (e ainda acontece) com o corpo feminino.

Apesar dos avanços feitos na academia, na prática Portugal continua a ter uma abordagem extremamente individual e médica, evidenciada pelas próprias políticas aplicadas, baseadas não nos direitos dxs cidadãs/os com deficiência mas sim nas suas necessidades. Para além das consequências imediatas para xs interessadxs, que incluem falta de apoio e transferência de responsabilidades do Estado para o terceiro setor (caridade), esta abordagem perpetua a estigmatização da pessoa com deficiência, vista como inválida, inativa e subsídio-dependente. Reflexo do estereótipo é o próprio apoio financeiro em Portugal que já sendo extremamente baixo, rondando os 180 euros, e está ainda dependente de avaliações médicas, que acaba muitas vezes por ser incompatível com atividade profissional ou, por exemplo, com o matrimónio – evidenciando mais uma vez a transferência de responsabilidade do Estado para outrxs.

Por outro lado, o estigma existente e os estereótipos associados a pessoas com deficiência condicionam o desenvolvimento pessoal e social do indivíduo. Quando retratadxs nos media, as pessoas com deficiência são por norma incompletxs e pouco integradxs – a incapacidade é invariavelmente mostrada como algo a evitar a todo o custo e curar sempre que possível. A predominância do modelo médico aliado à obsessão da sociedade com beleza leva a um foco quase exclusivo na cura, através de cirurgias ao invés da adaptação do meio envolvente ao indivíduo. Isto significa que a pessoa com deficiência é vista como algo com falhas com necessidade de ser “arranjado” reduzindo assim a tolerância a corpos que não se adequem ao ideal de beleza e normalidade dominante, prejudicial para qualquer género. Por um lado, o homem com deficiência pode sentir uma “crise de masculinidade” por representar o oposto ao ideal masculino: viril, forte, capaz e ganha-pão. Por outro lado, a mulher sofre duplamente já que não só lhe é retirado o papel de cuidadora, já que neste caso é ela quem necessita de cuidados, mas também a sua identidade sexual.

Becky
Becky

Esta assexualização, particularmente no caso das mulheres, que têm maior tendência a serem demasiado protegidas pela própria família, vai de encontro ao estereótipo da pessoa com deficiência como, por um lado, frágil, ingénua e infantil e, por outro, como romanticamente e sexualmente indesejável. Isto leva a que algumas mulheres se voltem para a super-sexualização (tão criticada pelo feminismo mainstream) de forma a verem a sua sexualidade reconhecida. Um bom exemplo é o da atriz paraplégica Ellen Stohl, que nos anos 80 pediu para ser fotografada pela Playboy, sob o argumento de que a sexualidade é a coisa mais difícil de manter para as pessoas com deficiência. Contudo, o estereótipo continuou visível durante a sessão fotográfica, já que Stohl foi apresentada ora como um ser sexual, completamente desprovida de tudo o que pudesse apontar para a sua incapacidade (por exemplo, a cadeira de rodas), ora como uma mulher com deficiência, completamente desprovida de sexualidade. Isto pode ser visto como um pau de dois bicos já que com a remoção da identidade sexual vem também um relaxamento do esterótipo feminino; nos anos 90 foi introduzida Becky, a companheira de Barbie, numa cadeira de rodas. Ao contrário da Barbie, com vestidos apertados, saltos altos e acessórios da moda, a Becky vem preparada para a ação com roupa confortável e uma câmara fotográfica. Tal como no caso de Stohl, podemos ver que as mulheres com deficiência podem escapar à objectificação e apropriação sexual, com o custo de perder por completo a sua identidade de ser feminino e sexual. De facto, é bastante comum retirar o género à pessoa com deficiência, classificada normalmente como ‘dependente’ ou ‘deficiente’.

 As consequências desta infantilização e assexualização são graves, dado que vêm normalmente aconpanhadas de protecionismo familiar e de falta de educação sexual, que se por um lado limita e bloqueia a identidade sexual do indivíduo, por outro torna o mesmo mais vulnerável a eventuais abusos físicos e sexuais. Isto acontece por uma série de razões: pode haver mais dificuldade em reconhecer e distinguir consentimento, certos tipos de deficiência podem condicionar a comunicação e por consequência dificultar ou impossibilitar a denúncia de abusos, e finalmente a própria falta de autoestima – já que a sociedade pinta as pessoas com deficiência como incapazes/indignxs de amar e ser amadxs – pode levar a que os indivíduos permaneçam em relações abusivas. O facto da sexualidade de pessoas com deficiência ser ainda considerado um tabu é altamente problemático porque se baseia também numa sexualidade em termos funcionais, significando assim que a incapacidade é vista, mesmo em termos médicos, como “disfuncional”.

Em vez disso, será muito mais saudável uma abordagem menos restrita que consiga englobar todas as diferentes maneiras de experienciar a sexualidade, que eliminem a ideia do corpo “perfeito”. O documentário “Yes We Fuck“, ainda em fase de crowdfunding, é um bom exemplo desta abordagem, encarando a sexualidade da pessoa com deficiência como algo completamente natural, ainda que experienciado de forma diferente da norma – o que é, por si só, uma atitude extremamente positiva e feminista que desafia o ideal heteronormativo. De facto, este documentário vai maioritariamente contra as (poucas) representações de sexualidade e deficiência nos media. Se tomarmos como exemplo o filme “The Sessions“, é clara a assimetria de poder na relação entre o homem com deficiência e a profissional do sexo, já que o primeiro é representado como virgem inocente e como um encargo (ao invés de um membro ativo numa relação) e a segunda como membro ativo, altruísta e com bom coração, reforçando também a ideia de que a reação perante a deficiência deve ser a de pena. "The Sessions"

 As representações mediáticas de pessoas com deficiência caem por norma numa de duas categorias: a vítima ou o indivíduo excecional, servindo em qualquer uma delas como objeto passivo para pessoas sem incapacidade. A comediante Stella Young vai mais longe e fala de inspiration porn, na qual a sociedade utiliza indivíduos com deficiência como objeto de inspiração para indivíduos sem deficiência, fazendo-os pensar que por piores que as coisas estejam, podia ser pior – podia ter uma deficiência. As pessoas com deficiência são objectificadas já que estas representações não são feitas de acordo com as suas próprias opiniões, sendo apenas usadas para benefício de outrem, contribuindo assim para a manutenção do status quo. Novamente, vemos a prevalência do modelo individual de deficiência, que coloca o problema no indivíduo e não na sociedade que o exclui; assim, a pessoa com deficiência é vista como exepção já que consegue sobreviver num meio incapacitante e que contrariamente a todas as (baixas) expectativas, consegue realizar as tarefas mais básicas.

 O uso de metáforas no nosso discurso corrente é também algo que reflete os preconceitos associados a pessoas com deficiência. Expressões como “anormal”, “atrasado mental” ou mesmo “cego” e “surdo”, muitas vezes usadas também em textos feministas, são no final de contas representações de pessoas com deficiência, usadas como metáfora para apontar algo negativo. E esta questão é mais importante do que é reconhecida, já que mais do que palavras, as metáforas são um reflexo da nossa ideologia (muitas vezes da ideologia dominante), que vêm associadas a um conjunto de práticas discriminatórias justificadas pelo uso da linguagem.

As baixas expectativas da sociedade são muitas vezes reforçadas pela família, o que explica em certa medida o baixo nível de ensino entre pessoas com deficiência, particularmente no caso das mulheres, que neste caso sofrem um duplo preconceito. Segundo o Instituto Nacional para a Reabilitação é considerado menos normal que uma rapariga com deficiência procure algum tipo de formação quando comparada com um rapaz; em Portugal em 2001, apenas 3.1% das mulheres com deficiência estavam a estudar. Isto por sua vez contribui para a exclusão do mercado de trabalho e facilita situações de exploração laboral, já que muitas vezes estas permanecem em casa ou em instituições onde realizam trabalho doméstico não remunerado. Tudo isto contribui para um ciclo vicioso de pobreza e dependência. Por outro lado, às mulheres com deficiência são muitas vezes negados direitos reprodutivos, sendo estas levadas a acreditar que nunca poderão ter filhxs por falta de capacidade para os criar e mesmo por não serem merecedoras de um(a) parceirx afetivo; na prática, a estas mulheres é frequentemente negado o acesso a tratamentos de fertilidade e à custódia de filhxs já existentes,  e são muitas vezes vítimas de esterilizações forçadas.

As barreiras existentes no feminismo mainstream são de vários tipos, prendendo-se por exemplo com a arquitetura, com atitudes ou modelos comunicacionais. Por exemplo, se uma reunião se realiza num prédio sem elevador, uma mulher em cadeira de rodas não poderá comparecer; se a comunicação é feita apenas verbalmente, uma mulher surda não poderá participar na discussão; se a tertúlia é exclusiva para mulheres, uma mulher que tenha um cuidador masculino não pode entrar; se o discurso é excessivamente académico são excluídas as mulheres que não tiveram oportunidade de ter formação.

Outro tema que causa desconforto na comunidade feminista é também a questão do aborto em caso de deficiência, já que a deficiência é muitas vezes apontada como argumento pro-escolha. Cabe no entanto às feministas desconstruir o estereótipo da deficiência – da mesma forma como se foi desconstruindo os esterótipos de género ou de raça – até porque não há forma de prever a qualidade de vida de alguém. Não quer isto dizer que devemos ser contra a interrupção voluntária da gravidez mas apenas que a deficiência não deve ser utilizada como argumento fácil para tal, já que se uma mulher considerar que tem a capacidade física, emocional e económica para criar uma pessoa com qualquer tipo de incapacidade tem o direito a essa escolha, não devendo ser pressionada a abortar como frequentemente acontece. Esta ideia de que é o nosso dever (e não escolha) abortar o feto apenas devido a deficiência é entendida por alguns como eugenia, já que a sociedade parece comprometida a eliminar aqueles que não se adaptam ao ideal normativo.Jillian Mercado

 As mulheres com deficiência são geralmente caracterizadas apenas pelas suas vulnerabilidades, quando o discurso se devia focar nas suas potencialidades, permitindo assim o seu empoderamento. Felizmente, já vamos tendo exemplos destes, embora ainda sejam poucos; o ano passado, a modelo Jillian Mercado pousou com a sua cadeira de rodas para a Diesel, enquanto que a cantora Viktoria Modesta (foto de topo) fez notícia como a primeira “pop star biónica”. Casos como estes fazem mais do que dar visibilidade ao movimento, indo mais além, redefinindo os nossos conceitos de beleza, normalidade e identidade.

Numa sociedade que despreza a diferença, as mulheres com deficiência são sem dúvida um dos grupos mais vulneráveis. É fulcral o desenvolvimento de um feminismo verdadeiramente intersecional que integre todo o tipo de mulheres e que entenda que ainda que os problemas da mulher com deficiência sejam mais extensos do que os da mulher sem incapacidade, estas não são menos mulheres por isso. Merecem e precisam de ter as suas vozes ouvidas.

Catarina Amorim Santos

Catarina Amorim Santos

Alfacinha e cidadã do mundo, gosta de saltar de sítio em sítio para absorver tudo o que pode. Começou por escolher Comunicação porque gostava de escrever mas deixou o Jornalismo e Portugal para trás há dois anos para estudar Desenvolvimento e Relações Internacionais na Dinamarca e em Pequim. Feminista desde tenra idade, Catarina quer juntar o que sabe das duas áreas para tornar o mundo um sítio melhor para todxs. Para além do Clítoris, escreve semanalmente para a Crossing Borders e tem um livro poesia publicado.
Catarina Amorim Santos

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