Maximize a sua segurança

Maximize a sua segurança!

Decorre, desde finais de Novembro passado, uma campanha conjunta do Metropolitano de Lisboa, Carris e PSP (Divisão de Segurança e Transportes Públicos – DSTP) com o mote A prevenção é a melhor proteção!”. Apesar de não duvidar das boas intenções dos organismos envolvidos (“Maximize a sua segurança, minimizando a exposição ao perigo.”) e como normal cidadã, tomar as diligências necessárias para manter uma relativa segurança no dia-a-dia na capital, não posso deixar de expressar um esgar sofrido perante a campanha em causa. 

adormecerEntre cartazes que alertam “Evite adormecer, a ocasião faz o ladrão.”, “Cuidado com os carteiristas, guarde a carteira num local seguro.” e “Aguarde a chegada do seu transporte em locais bem iluminados.” uma perspectiva tendenciosa se revela: o foco da prevenção é tido na vítima e nas acções, inacções e atitudes desta. A perspectiva dx lesante é de que vai fazê-lo, sendo que o dever de evitamento recai sobre a esfera dx próprix lesadx. Um desconforto muito palpável se manifesta – estamos perante uma tendencial culpabilização da vítima. (ver panfleto completo da campanha)iluminados

A culpabilização da vítima – atitudes que marginalizam a vítima/lesadx, tornam difícil apresentar queixa e deslocam o foco de responsabilização pelo acto da pessoa agressora/lesante para a vítima/lesadx – é uma das características mais marcantes de uma cultura de violação – de acordo com o sociólogo Michael Parenti, esta manifesta-se pela aceitação da violação (e acrescentamos assédio) como uma ocorrência banal e mesmo como prerrogativa masculina, podendo ser exacerbada pela apatia dos órgãos policiais ao tratar de casos de violação, tal como culpabilizar a vítima, relutância em romper com as convicções patriarcais e medo de estigmatização por parte das vítimas e suas famílias – onde esta culpabilização se manifesta de forma mais gritante e discriminatória – que é perfeitamente ilustrada pelo cartaz “Evite encontrões e aproximações indesejadas.”, a meu ver, o mais grave de toda a campanha. Embora “…a ocasião faz o ladrão” leve para casa o troféu de menos bem conseguido – e por isto quero dizer que falhou redondamente.encontrões

Temos conseguido apontar cada vez mais um foco de luz (ainda assim, incrivelmente deficitário face à realidade) ao problema do assédio em espaços públicos (propostas de lei contra o assédio verbal, vulgo piropo, crescente cobertura mediática para o fenómeno, largamente fomentada por movimentos espontâneos em redes sociais); é algo com que grande parte das pessoas não-homens têm de lidar (quase) diariamente, e para o qual O Clítoris da Razão alertou numa campanha recente.9

Mas a cultura de violação, por se propagar subtilmente pela sociedade em diversos campos, é perpetuada igualmente por outros cartazes. No entanto, por muito que a vítima seja admoestada quando apresenta queixa, conselho que é também dado em cartaz “Se for vítima de furto ou de roubo não deixe de apresentar queixa formal.”, ou tenta defender-se ou resolver a situação de ter sido furtada (porque não guardou tão bem a carteira ou porque adormeceu), não chega a ser desacreditada ou desvalorizada a sua situação aquando esse julgamento. No entanto, aproximações indesejadas, “encontrões”, como eufemisticamente a campanha lhes chama, ou assédios em todo o seu “esplendor” (que como sabemos, podem escalar rapidamente para situações que põem ainda mais em causa a segurança da pessoa que os sofre), não são fáceis de evitar e a campanha não inseriu sabiamente nenhuma sugestão palpável para o fazer. Devem ser evitados. Por quem? Por quem não os deseja; se não os deseja, não se ponha a jeito. E o que devo fazer se acontecer? Esteja atentx. E depois? Isso é consigo, nós só tratamos de furto/roubo.queixa


Sugere-se a consulta da parábola The Rape of Mr. Smith de victim blaming no caso de roubo. Em inglês.

Daniela Morais Oliveira

Daniela Morais Oliveira

Está a acabar a licenciatura em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, trabalha no mundo da cosmética e perfumaria desde os 16 anos, mas já fez de tudo um pouco.
É editora do Clítoris da Razão e unicórnio convicto (o que quer que isso seja), pelo que espalha o evangelho feminista por onde vê uma nesga de oportunidade.
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