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Cinco minutos para ser feminista!

Sempre fui muito dada a todas as questões que envolvem os direitos das mulheres e a toda a História inerente a essa luta. Hoje em dia surpreendo-me ao ouvir, tantas vezes que perdi a conta, que o Feminismo e o machismo são “farinha do mesmo saco”. Não sei se este facto se deve a uma profunda ignorância histórica ou se esse paralelo é facilitado pela fonética das duas palavras.

Por vezes dou por mim a pensar, do alto do meu privilégio enquanto jovem mulher, branca, cisgénero e heterossexual, que qualquer dia não teremos de lutar por igualdade. Teremos sim de lutar para conseguirmos ser aceites enquanto feministas e para não termos que nos justificar, de uma forma tão constante que chega a ser doentia, que não odiamos homens, que não os queremos rebaixar, que não queremos ser mais que ninguém, que até não nos importamos que nos ajudem nesta luta.

Qualquer dia, o nosso foco de luta deixa de ser os nossos direitos. Por este andar, um dia acabamos a pedir por favor para nos deixarem ser feministas e só cinco minutinhos para explicarmos que viemos em paz. Nessa altura, pedimos então desculpa por sermos mulheres, transsexuais, homossexuais ou outra coisa qualquer; por lutarmos pelos nossos direitos, e desculpamo-nos ainda pelo incómodo que o nosso ativismo possa vir a causar porque, enfim, afinal nada disso é necessário, não é?

Em certas situações, gostava de estar sempre munida de uma espécie de manual de feminismo para céticxs. Por vezes fico petrificada quando me perguntam qual é a utilidade do Feminismo, porque é que “ainda” existem feministas e mais ainda quando ouço que o Feminismo “já não faz sentido”.

Pois bem, está então na altura de colocarmos os pontos nos is. Então, por favor, dêem-me só cinco minutinhos para me explicar. Antes de mais, importa referir que a primeira vaga do Feminismo surgiu no século XIX, quando as mulheres no Reino Unido decidiram lutar pelos seus direitos, tendo como principal objetivo alcançar o direito de voto. As Sufragistas, como ficaram conhecidas, promoveram grandes manifestações, fizeram greves de fome e o voto foi alcançado no Reino Unido em 1918. Estas mulheres deixaram-nos um legado de força, determinação e direitos por conquistar.

Hoje a luta é outra! Hoje as mulheres lutam para que exista uma igualdade de salários em empregos iguais, por cargos onde quase só os homens conseguem chegar. Mas desenganem-se, porque não ficamos por aqui, esta é a ponta do iceberg.

Para quem ainda pensa que o Feminismo é uma luta sem causa, Siobhan Norton relembra, num artigo do The Independent, que também ela já o considerou. Apesar disto, deixa uma mensagem clara a quem pensa que as mulheres já alcançaram os mesmos direitos que os homens: o maior número de vítimas de assédio sexual continuam a ser mulheres. Mas ainda há mais.

Talvez neste Portugal onde nada acontece (ou onde tudo acontece mas todxs tapamos os olhos, porque protestar incomoda!), não é necessário ser feminista (será que não é?): é este o argumento com que tantxs feministas se deparam. Mas enquanto for necessário travar esta luta em qualquer parte do mundo, assim deve ser feito. Em África, 125 milhões de mulheres já sofreram de mutilação genital e em países como a Índia, o abuso sexual de mulheres é endémico. Na Arábia Sáudita, as mulheres ainda não conquistaram o direito ao voto e na Europa, em pleno século XXI, ainda existem enormes disparidades salariais nos mesmos postos trabalho, onde as mulheres recebem menos.

Não vale a pena lutar contra isto? Será que nos devemos alienar a estas questões, apenas porque as correntes que aprisionam estas mulheres não são as mesmas que nos aprisionam a nós? A resposta é simples: Não! Porque a questão não é tão línear quanto nos parece. As correntes aprisionam-nos a nós, sim.

Vejamos: de acordo com dados estatísticos, em Portugal, as mulheres ainda recebem de ordenado, menos 18% do que os homens. Em Portugal, as mulheres ainda são as principais vítimas de assédio moral, sexual e violação. Esta não é, por isso, uma luta sem causa! Esta é a nossa luta!

A luta pela igualdade de género deve e tem de ser uma luta transversal! A escritora feminista Chimamanda Adichie, num discurso emitido em 2013 – We Should all be Feminists – diz-nos porque todxs deveríamos ser feministas: 52% da população mundial são mulheres, mas os cargos de prestígio são ocupados, maioritariamente, por homens. Wangari Maathai, a primeira mulher a receber um Nobel da Paz, em 2004, um dia disse-nos: “quanto mais alto subires, menos mulheres irás encontrar”, não dá que pensar? Desde que em 1910 as mulheres tiveram de lutar pelo direito de voto, o mundo evoluiu, as mentes abriram para muitas outras questões, mas infelizmente as ideias de género não acompanharam essa evolução. É por isto que precisamos de Feminismo!

Mas o Feminismo e a desigualdade não passam apenas por isto.  Adichie acrescenta que desigualdade não passa apenas pela discriminação às mulheres, mas por outros assuntos que ainda hoje estão patentes na sociedade. Desde cedo que as raparigas são educadas para serem submissas, frágeis e os rapazes educados para serem o “sexo forte”. Para eles, ter medo é vergonhoso, ter comportamento de rapariga é inaceitável. Discriminação também é isto. Lutar contra isto, também é Feminismo.

Hoje ainda é inaceitável ter um aspeto que fuja às normas e aos padrões estipulados. Ser demasiado gordx, ser demasiado magrx está fora de questão. Discriminação também é isto. Lutar contra isto, também é Feminismo. Lutar contra o racismo e a xenofobia, também é Feminismo. Lutar contra a homofobia e a transfobia, também é Feminismo.

Se todxs concordamos com isto, então porquê insistir que a causa para esta luta ainda não foi encontrada? Isto é Feminismo! O Feminismo é necessário. Porquê ter medo de o dizer? Porquê oprimir esta luta? Para que tenhamos medo de admitir que somos feministas? Ou para termos medo de ter nascido mulheres, de sermos transgéneros ou homossexuais e não lutarmos pelos nossos direitos?

O Feminismo é uma luta pela igualdade, longe de ser comparável com o machismo. Igualdade de género, igualdade étnica. Igualdade! Acima de todas as preferências sexuais e políticas. Igualdade essa que ainda não existe! Aquando da comparação entre machismo e Feminismo, omite-se que o machismo advoga abertamente a superioridade dos homens sobre as mulheres. Não é isso que queremos. O Feminismo não luta só pelos direitos das mulheres, luta por um mundo mais justo, onde seres humanos vivam em harmonia. O Feminismo é necessário, o Feminismo tem uma causa. O Feminismo não é o perfeito contrário do machismo. Ser feminista faz sentido! Deixem-nos ser feministas, deixem-nos lutar, deixem-nos ser mulheres, deixem-nos ser aquilo que quisermos: Isto tudo, se não incomodarmos, claro.

Filipa Bule

Filipa Bule

Nasceu em Lisboa em 1994. Estuda Comunicação Social, e sonha um dia vir a ser jornalista na área da música. Gosta de ler, de escrever, e não dispensa um bom álbum de Hard Rock. É inconformada, contestatária e feminista desde que se apercebeu que as questões de género não são uma brincadeira.
Filipa Bule

One thought on “Cinco minutos para ser feminista!”

  1. Ok, eu até concordo com que lá para o Oriente Médio, África, as mulheres não têm os mesmos direitos que os homens. Mas, aqui no ocidente (onde nossa civilização está fundamentada na filosofia grega, no direito romano e na oral judaico-cristã) há igualdade, sim! Os casos onde as mulheres têm salários menores do que os homens, se explicam pelo fato de estas se interessarem por profissões menos remuneradas e mais flexíveis (para que tenham mais tempo com seus filhos), licensa maternidade, etc. A própria blogueira, por exemplo, se deseja que mulheres tenham altos salários, por que não comece por você mesma, procurando ser uma grande executiva, ao invés de jogar a responsabilidade para outras mulheres? Há diferença salarial pois há liberdade. O feminismo é inútil, para o que ele diz ter por finalidade. Mas, é útil quando o objetivo é destruir a base da nossa civilização em prol de um ”paaíso na terra”

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