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O perigo da subtileza: prostituição e media

No ano 2008 vários jornais na Catalunha publicaram a notícia surpreendente de que a Presidente de Câmara de um município na zona de Girona decidiu deitar Zotal numa rotunda para ver-se livre de uma mulher que aí oferecia serviços sexuais. Para quem não esteja familiarizadx com o produto, o Zotal é um desinfectante que se “destina à eliminação de microorganismos como bactérias, vírus, fungos e micróbios”.

Segundo as fontes jornalísticas, esta decisão municipal foi consensuada numa reunião de vereação, salientando o jornal que alguns dos vereadores se dedicavam à pecuária, conhecendo, portanto, as propriedades do produto. A presidente da Câmara argumenta que já tinha tentado dissuadir esta mulher anteriormente mas perante a sua insistência não lhe restou outra opção.

Os jornais que difundiram esta notícia, e que nem sempre conseguem transmitir informação isenta de juízos de valor, desta vez, e aparentemente, abstiveram-se de quaisquer comentários tendenciosos e optaram por fazer apenas um relato da situação. Contudo, uma leitura mais atenta dos artigos publicados põe em evidencia alguns dos mais perigosos erros jornalísticos no que se refere a abordar questões de tal complexidade como a prostituição e a exploração sexual.

Por um lado, a total invisibilização da mulher. A notícia gira à volta de uma acção contra uma pessoa que não é ouvida em nenhum momento e que não tem espaço mediático equivalente ao daquelxs que a acusam. Por isso teve que calar a sensação de ser humilhada e inferiorizada à categoria de vírus. Talvez devido à sua actividade e à representação social que dela se tem, esta anulação da sua opinião peca também por validar uma posição de poder: o poder dos que a acusam e a submissão silenciosa de quem é acusada, num típico caso de violência simbólica.

Mas se a opinião da mulher é invisibilizada, a presença dos clientes é nula. Como em muitas outras notícias, quando se aborda o tema da prostituição o cliente raramente é referido, dando muitas vezes a sensação que esta não é uma actividade sujeita às regras da oferta e da procura.

Por outro lado, se pensarmos desde o ponto de vista da legitimidade da divulgação desta acção de forma tão unilateral, em nenhum momento se questiona um facto muito evidente: a prostituição não é uma actividade proibida em Espanha e o seu exercício no espaço público, se não está regulado, não tem porque obedecer a qualquer tipo de autorização. Sem embargo, a criminalização que se faz da mulher é visível ao longo de todos estes artigos, explicando-se a história numa dicotomia de boa mulher/má mulher: a presidente da Câmara que zela pelos interesses da cidadania e a mulher que exerce a prostituição e que com a sua “atitude desencadeou uma situação de pé de guerra.”

A falta de contextualização social da situação descrita, a ausência de perspectiva de género, a utilização de linguagem estigmatizante e reducionista, a falta de contraste da informação e a utilização de linguagem sexista que fomenta estereótipos de género são alguns dos pontos que se poderiam identificar e debater, não só nestes artigos mas na maior parte de artigos jornalísticos que se escrevem relativos à prostituição.

Talvez estas apreciações fossem apenas mesquinhices se não estivéssemos a falar da linguagem utilizada pelos meios de comunicação que, através da palavra e da imagem, constroem as narrativas sociais e normalizam estereótipos debaixo dos quais nos sentamos confortavelmente à sombra do que “toda a gente diz”.

Se na notícia mencionada, a informação era suficientemente grave para fazer-nos reflectir, em muitas outras notícias sobre a venda de serviços sexuais a estigmatização é muito mais subtil e, por isso mesmo, muito mais perigosa na sua capacidade de fazer o receptor interiorizar preconceitos banais, sem sentido crítico nem necessidade de questionamento.

Para alertar para a forma como se comunica sobre esta realidade bastante desconhecida para a maior parte da população, apresentou-se na sexta-feira 13 de Fevereiro no Colégio de Jornalistas da Catalunha um Guia de recomendações à imprensa para abordar as noticias sobre prostituição e exploração sexual de uma forma imparcial e que não perpetue os estereótipos acumulados ao longo de muitos anos de desinformação.

prostituição e media

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O gGia compõe-se de 11 recomendações a meios de comunicação e 4 recomendações gerais de implementação. Estará em breve disponível nesta página, mas até lá avanço-vos algumas destas recomendações:

Abordar o fenómeno da prostituição em toda a sua complexidade social

A prostituição é um fenómeno social heterogéneo e multicausal com motivações de diversas ordens e que reflecte frequentemente relações de poder e desigualdade de género, pelo que a elaboração de reportagens sobre esta realidade deve aprofundar os vários aspectos culturais, económicos e sociais que a compõem, visibilizando todxs xs implicadxs;

Diferenciar entre a prostituição exercida de forma  livre e a prostituição forçada

A prostituição forçada é uma grave violação dos direitos humanos que atenta contra a liberdade, integridade e dignidade das pessoas, enquanto que a prostituição escolhida como actividade económica de forma livre é uma decisão individual e consciente;

Não relacionar a prostituiçao com a delinquência, a insegurança e o incivismo

Ter em conta que exercer a prostituição não é um delito e que a condenação da actividade, relegando-a para o âmbito de outros delitos menores, é apenas uma perpetuação de uma tendência a aglomerar todas as actividades da economia informal sob a mesma conceptualização;

Utilizar fontes de informaçao especializadas, dando voz e autoridade às mulheres que exercem a prostituição

Visibilizar as experiências e opiniões das mulheres que exercem a prostituição, respeitando o seu consentimento em relação à divulgação da sua imagem, pensando na repercussão que esta pode ter numa sociedade em que está tão presente o estigma associado à prostituição. Ao mesmo tempo, devem utilizar-se fontes especializadas de informação, principalmente profissionais que trabalham no âmbito e conhecem esta realidade de perto;

Fazer um uso não sexista da linguagem tratando de maneira equitativa os diferentes sujeitos implicados

Eliminar os preconceitos sexistas na narração e construção da notícia, não utilizando termos que estigmatizem as mulheres, bem como evitando utilizar a palavra prostituta, que reduz a pessoa a uma só faceta ou actividade da sua vida, com fortes conotações culturais negativas.

Enquanto estas recomendações não são utilizadas diária e conscientemente, não é demais alertar que a acção dos estereótipos de género tradicionais retro-alimenta a exclusão das mulheres que vivem o estigma de forma diária. A subjectividade individual deve sempre estar acima do tratamento condicionante dos meios de comunicação e só com um discurso inclusivo e informado nos aproximaremos a algo parecido com a equidade entre os géneros.

Se conhecem jornalistas façam difusão e sensibilização já que neles nos baseamos muitas vezes para construir a nossa concepção do mundo.

Catarina Alves

Catarina Alves

Catarina nasceu em Lisboa em 1978 e passaram muitos anos até que percebesse que a revolta que sentia face à desigualdade se chamava feminismo. De espírito inquieto e curioso, passou por várias áreas até encontrar uma área de estudo em que se sentisse confortável: a intervenção social.
Com o grau de Mestre em Estudos de Género, Mulher e Cidadania pelo Instituto Interuniversitário de Estudos de Género da Catalunha, desenvolveu estudos no âmbito do género e migração, prostituição e tráfico de mulheres com fins de exploração sexual, trabalhando principalmente com imigrantes africanas.
Trabalha há 6 anos no Departamento de Mulher da Câmara Municipal de Barcelona, num serviço de assistência directa a mulheres que exercem a prostituição, enquanto dá aulas pontualmente em várias Universidades da Catalunha e tutoriza e desenvolve vários trabalhos de investigação nas áreas da violência de género e prostituição.
Catarina Alves

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