Body Positive Scale

Corpo e amor próprio – 7 “mantras” de positivismo corporal

Cândida/espiga design // www.espigadesign.net/
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Quando me sentei para começar a escrever, numa manhã de sábado no Starbucks do Chiado, onde entre a playlist jazzy e os casais cheesy estava ali sentado sozinho a escrever este artigo, não posso dizer que estivesse especialmente virado para o positivismo (fosse ele corporal, emocional ou sequer meteorológico – até as nuvens espreitavam).

Contudo, é disso mesmo que este artigo vai tratar: as formas de aceitarmos o nosso corpo, ou pelo menos começar o processo de o fazermos, têm um impacto na forma como encaramos o nosso valor intrínseco, as relações que formamos e as pessoas que nos rodeiam. No fim, podes encontrar citações de testemunhos dados por amigxs feministas, que se disponibilizaram para falar da sua experiência com positivismo corporal. Para uma definição mais decente e alguns exemplos de trabalho na àrea do body positivism, podes visitar os links oferecidos no final do artigo.

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Finalmente, este artigo é uma visão pessoal sobre a forma como vemos os nossos corpos e a forma como vivenciamos as experiências que temos com eles. Não pretende ser um estudo sociológico, estatístico nem académico. Até porque não me pagam para isso. Na verdade isto sou eu, um rapaz que se questiona, a tentar encontrar o meu próprio caminho para uma vivência mais pacífica com o meu corpo. Assim sendo, com as introduções feitas, vamos começar:

1 – Toda a gente passa por isso.

A sério! Não conheço uma única pessoa que não tenha, em certo período da sua vida, especialmente na adolescência, passado por um momento em que odiou o seu corpo! Peso (ou falta dele), pilosidades, marcas, estrias, borbulhas, cicatrizes, inexistência ou deficiência de certas partes da anatomia, etc. Todas as nossas partes dos nossos corpos são policiadas. Especialmente se fores uma mulher. E se não é aceitável que esse policiamento aconteça, é normal que passes por essas questões sobre o teu corpo! Somos animais sociais, as reacções dos outros bichinhos adoráveis – os da espécie humana – que nos rodeiam, especialmente aqueles que nos são próximos, têm influência na forma como nos sentimos.

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2 – Ama-te a ti mesmx primeiro!

E se quem nos rodeia tem potencial para nos influenciar, algo que faz diariamente, nem sempre da forma mais sensível e educada, as fontes de stress, os gatilhos emocionais e toda a dor que pode advir da não aceitação do nosso corpo são por vezes quase impossíveis de suportar. Ao longo dos últimos anos, em que entre ter relações e estar solteiro, dei por mim a aperceber-me que a minha percepção do meu corpo, da minha atractividade e da minha existência enquanto pessoa completa estavam muito ligadas ao meu “estado civil”. Dava por mim a estar “OK” (com muitas aspas) com a minha existência neste corpo se estivesse numa relação, passando a odiar ou a pelo menos a não sentir qualquer prazer por estar nele quando estava solteiro. Liguei com estar em relações o meu valor enquanto pessoa, enquanto indivíduo e enquanto corpo. E mais uma vez, sei que não sou o único que o faz.  

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3 – O feminismo vai apoiar-te.

Mas com o tempo, com uma abordagem feminista interseccional à minha experiência avaliei a forma como a opressão que sofri/sofro se relaciona com um enorme número de outras opressões que outras comunidades “minoritárias” – as mulheres, a comunidade queer, as comunidades não brancas e migrantes, as pessoas com condicionamentos físicos ou mentais incapacitantes e mesmo as pessoas com uma condição económica estruturalmente desfavorável – sofrem por não terem sido “abençoadas” com o bingo do privilégio, isto é: um homem cisgénero, branco, heterossexual, magro, física e mentalmente capaz e de classe média alta (o estereótipo do corrector de bolsa de Wall Street!) Só com a percepção das intersecções em todas estas opressões me apercebi de como é importante que mais do que depender da forma como outrxs me vêem – dentro da teia que exclui quem não cabe nas caixas confinadas da existência privilegiada – é importante que eu me veja a mim mesmo primeiro como um ser completo, capaz e bonito. Só depois dessa percepção, de que dependo de mim para gostar de mim, é que me apercebi que só aí, depois de me começar a amar com todas as falhas e imperfeições – ou pelo menos de começar o processo para o fazer – é que vou poder dedicar-me às relações com as pessoas que me rodeiam de uma forma completamente honesta, em que pensamentos sobre possíveis faltas de interesse devido ao meu corpo não me atormentem mesmo nos momentos em que a pessoa mostra que me deseja (seja esse desejo um amor romântico, uma amizade e/ou desejo sexual). Ser capaz de me amar a mim próprio foi também o caminho que tive que tomar para deixar de julgar quem me rodeia baseando-me na sua aparência, procurando encontrar em cada pessoa a singularidade que a destacava para mim.

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4 – Só temos um corpo, este corpo…

A realização desta percepção teve o resultado de fazer finalmente o clique na minha mente que me fez perceber, quer odeie ou ame o meu corpo, este é o único que terei, este é o qual vou ter que viver para o resto da minha vida. Por isso é melhor que o comece a aceitar E se há coisas em que ainda encontro alguma resistência em aceitar em mim próprio, após anos de endoutrinação numa sociedade que nos ensina que nunca somos perfeitxs, em que nem mesmo as pessoas que aparecem nas capas de revistas são como as pessoas que aparecem nessas capas de revistas, em que certas partes dos nossos corpos são endeusadas e outras demonizadas. Quando na verdade, não passamos de um monte de células, um amontoado de partículas que foram em tempos estrelas e que se renovam em novos materiais quando morremos. Passemos mais tempo a viver com os nossos corpos, aproveitando o que este sopro na existência do Universo tem para nos oferecer!  

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5 – … mudá-lo e adaptá-lo (ou não!) é igualmente aceitável!

Mas se para mim, viver no meu corpo é um processo de aceitação do que me é natural, não quero dizer de forma alguma que decidir que se deseja alterar o seu corpo em qualquer sentido, seja através de exercício físico, cirurgias estéticas, maquilhagem, depilação, tatuagens, piercings, etc., seja algo negativo. A mais importante mensagem no movimento body positive é que aceitar o nosso corpo é reconhecer o que queremos nele, de forma saudável e não obsessiva, livre de imposições sociais, quer essa percepção pessoal se aproxime mais da norma social ou se distancie desta. E se aceitamos o nosso corpo em toda a sua singularidade, alterando-o ou não, consoante nos sentimos mais confortáveis (e essa percepção pode, e vai, mudar ao longo do tempo), então aprendemos que não nos cabe a nós julgar as vivências corporais dxs outrxs. Pelo contrário! Devemos ser xs primeirxs a desconstruir as percepções normativas que nos fazem sentir desconfortáveis com a vivência corporal da pessoa à nossa frente.  

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6 – É normal não te sentires sempre positivx.

E não, provavelmente não vais sentir-te sempre positivx com o teu corpo, life sucks! Por vezes as pressões do quotidiano, as influências das pessoas que nos rodeiam, o que se ouve, lê e vê nos meios de comunicação e/ou condições de saúde, física ou mental podem afectar a forma como nos percepcionamos. Quando nos olhamos ao espelho, quando nos tocamos, quando alguém nos toca podemos sentir que todo o trabalho que fizemos se esvaiu. Quando isso acontecer o importante é perceber as raízes dessa insegurança, as razões para essa fragilidade e focar a nossa atenção naquilo que sabemos ser importante para nós. E na senda de todas as estantes de auto-ajuda nas livrarias, usar a o mote “fake it until you make it!”: saber que a nossa percepção do nosso corpo é variável e passageira permite-nos dizer a nós mesmxs que se mantivermos uma atitude positiva em que sobrecarregamos o nosso cérebro com mensagens positivas de aceitação leva a que o nosso cérebro comece realmente a perceber essas mensagens como reais, a modificar gradualmente a percepção negativa que temos.

Perceber que se só temos este corpo, que provavelmente x vizinhx do 3º esquerdo que fez um comentário menos amigável sobre o nosso corpo também terá os seus momentos de falta de auto-aceitação, que somos (em diferentes níveis) influenciáveis às pressões externas a nós, não nos torna menos activistas do positivismo corporal, mas antes mostra-nos a nossa humanidade, a nossa falibilidade e nossa vulnerabilidade, algo natural ao ser humano.  

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7 – Faz o que te deixa feliz

Para finalizar: a única coisa que podemos fazer é pensarmos no que é importante para nós, seja isso comer, fazer uma nova tatuagem, mudar o cabelo, deixar crescer os pêlos ou cortá-los, fazer exercício físico regular ou não, sentar à beira rio a ler um livro, ter uma noite de romance e/ou sexo com x(s) companheirx(s), ou qualquer outra actividade que nos dá prazer e perceber que isso é que é importante porque é o que nos faz sentir bem no nosso corpo.

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Conclusões:

Todos os corpos, pela sua existência, são intrinsecamente maravilhosos, um aglomerado de partículas que começaram como estrelas há muito desaparecidas, reconhecer o que nos faz confortáveis no nosso devia ser parte essencial da nossa existência. Se quando o descobrires tiveres um mau dia, porque esses virão, procura à tua volta o que, ou quem, te dá apoio. Um grande agradecimento a todxs xs que participaram com os seus testemunhos, confiando-me as suas histórias de força e vulnerabilidade.

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Um presente da nossa amiga Cândida da Espiga Design para harmonizar todos os corpos.

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E como prometido os testemunhos dxs nossxs amigxs:

Tiago Alves Silva

Tiago Alves Silva

Editor e Escritor at O Clítoris da Razão
Procura “ser mais que perfeito, maior que imaginação” na busca por um mundo mais igualitário, é por isso que faz parte da equipa d’ O Clítoris da Razão.

Nasceu entre o mar e a cidade, Mafra o viu crescer.

Tem uma relação quase romântica com artes visuais, especialmente fotografia e vídeo.

Gosta de tecnologia, direitos humanos e política.
Tiago Alves Silva

2 thoughts on “Corpo e amor próprio – 7 “mantras” de positivismo corporal”

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