"Gravidez Não É Doença" - Maternidade e Desporto | Entrevista

“Gravidez não é doença” – Maternidade e Desporto | Entrevista

Maio é considerado o mês das mães e da maternidade. Para as Mulheres que o querem, a gravidez pode ser dos momentos mais importantes da sua vida. Contudo, com a gravidez vêm as mudanças no corpo, os mitos sobre o comportamento das grávidas a pressão sociocultural para recuperar o “corpo perfeito”. O que é que muda quando a mãe faz desporto? Daniela Francisco, com 29 anos, é instrutora de Fitness e foi mãe há 6 meses. Lançámos-lhe o desafio de nos contar a sua experiência.

Margarida Henrique para O Clítoris da Razão: Porque é que escolheste o desporto como profissão?

Daniela Francisco: Porque gostava do desporto. Sempre fui desportista mas só no secundário é que comecei a ver isto como futuro. Inicialmente fui para Ciências e como não gostei de mais nada decidi seguir desporto. Sentia-me bem e quis continuar.

Para uma desportista, quais foram as maiores dificuldades que tiveste de ultrapassar durante a tua gravidez?

Durante a gravidez, e há medida que os meses passam, temos que abrandar um pouco o ritmo. Foi esta a maior dificuldade. Nada impede de praticar desporto mas o corpo vai pedindo para abrandar. Podemos pensar que não, mas a gravidez pede esse abrandamento, apesar de não pedir paragem.

De que maneira é que o exercício te ajudou durante a gravidez, durante o parto e no pós-parto?

Eu senti-me muito bem a fazer desporto durante a gravidez. Nunca quis parar e tinha aconselhamento médico para o fazer. Acho que, no geral, as grávidas, se o puderem fazer e se sentirem bem, devem praticar desporto. No final da gravidez é um pouco mais desconfortável mas é bom não parar. Ao parar sentimos mais dificuldades para nos mexermos e perdemos alguma agilidade.

Achei fundamental fazer exercício na gravidez. Acho que as mães devem fazê-lo durante esta fase, nem que seja apenas caminhadas. Nos últimos meses de gravidez, que é quando o bebé começa a pesar, as grávidas têm tendência a ficar com mais dores nas costas. O desporto pode ajudar a preparar a estrutura do corpo para carregar esse peso adicional, que é fantástico.

"Gravidez Não É Doença" - Maternidade e Desporto | Entrevista
Entrevista por Margarida Henrique

Durante a gravidez e no pós-parto o corpo da mulher sofre mudanças inevitáveis. Como é que sentiste que eram vistas por outros? Tiveste necessidade de as disfarçar ou de “tratar” delas imediatamente?

Nunca disfarcei nada. É claro que a barriga faz com que alguns exercícios não sejam exequíveis. Tive que ter algumas estratégias para continuar a fazer o exercício e não desistir dele. Nunca tentei disfarçar nada, acho que é fantástico estar grávida e poder fazer exercício. Após o parto tentamos sempre disfarçar aquela barriga que ficou sem o bebé e está flácida. Aí sim, tive tendência para a disfarçar.

Alguma vez sentiste pressão em recuperar o “corpo perfeito” que é tão badalado pelos media?

Alguma. Tem-se um bocado de preconceito de como fica a nossa barriga após a gravidez. Não corro atrás do corpo perfeito, mas inconscientemente tem-se sempre aquele pensamento de que “tenho que treinar. Está a chegar o Verão e tenho que ter a barriga que tinha”. E é possível chegar lá, eu já estou a ter resultados após 6 meses.

 Sentes que ainda existe o mito de que “as mulheres grávidas não devem fazer esforços” ou mesmo que “devem comer por dois”? Alguma vez foste confrontada com estes mitos? Como é que lidaste com eles?

Muito. Não falo das pessoas que fazem desporto, mas aquelxs que desconhecem o desporto ainda propagam estes mitos. Pessoas que me conhecem perguntavam-me se já tinha parado e eu dizia que não, que estava a continuar. Censuravam-me um pouco porque já tinha a barriga grande e não estava a parar. É claro que deixei de fazer alguns exercícios e de praticar algumas modalidades devido ao impacto, mas muitas pessoas ainda assim criticavam. Mas acho que se deve ao facto de que as pessoas não têm conhecimento de que as grávidas podem e devem fazer desporto ao longo de toda a gravidez. A gravidez não é doença. Quanto ao mito de “comer por dois”, como tenho uma estrutura magra, muitxs me diziam que eu tinha de comer. Mas como estava tudo bem com o bebé, eu ficava tranquila e esquecia essa pressão. Acho que no geral esses mitos ainda existem.

Dás aulas num ginásio só para mulheres. De que forma é que isso teve repercussões durante a tua gravidez e no modo como a conjugaste com o exercício físico? Sentiste que foi bem aceite pelas outras mulheres ou tiveste alguns julgamentos?

Aqui não senti julgamentos. Apesar de, por vezes, acharem que eu estava a dar mais do que devia, o facto de terem acompanhado a minha gravidez desde o início fez com que se sentissem confortáveis e que soubessem que eu estava bem. Cá as pessoas entendem mais, também por acompanharem mais. E lá está, há coisas que eu deixei de fazer, como os saltos. Conheço mães que correm durante a gravidez toda. Eu só não o fiz porque não o fazia antes e o meu corpo não estava habituado à corrida, mas estava habituado às aulas e por isso decidi mantê-las.

A prática de exercício físico regular é recomendado por vários médicos e especialistas. Como treinadora, tens dicas que queiras recomendar às mulheres que também tenham gosto pelo exercício?

Quem é desportista deve mantê-lo. Desde o início que deve dar a conhecer à entidade para a qual treina que está grávida e deve manter o treino. Se tiverem aconselhamento médico e se tiverem uma gravidez que não tenha riscos, pode praticar-se qualquer desporto, mas evitando grandes impactos. Nos primeiros três meses deve ter-se um pouco mais de cautela, mas sem parar por completo. Deve parar-se, sim, de fazer abdominais. Para além de não ser aconselhado, será impossível de os manter.

O pilates, por exemplo, é um desporto que as grávidas devem fazer do início ao final da gravidez, se o quiserem, mesmo não sendo desportistas antes, desde que estejam sempre acompanhadas pelo instrutor. Acho o pilates fundamental para manter o corpo em forma. Torna o corpo mais flexível e trabalha muito o nosso centro, bem como a nossa bacia, que precisa de estar preparada para os meses de gravidez. Durante o parto, a calma que o pilates transmite fez com que ficasse mais calma e ajudou-me a nível de flexibilidade, do controlo respiratório e da postura. Pessoalmente deu-me boas armas durante a gravidez, durante o parto e o pós-parto.

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Entrevista por Margarida Henrique
Margarida Henrique

Margarida Henrique

Margarida Henrique nasceu em 1994 e vive em Mafra. Desde cedo que se admite como feminista, lutando contra o preconceito e as convenções sociais através da sensibilização e “invadindo o mundo masculino” do desporto com a prática de Capoeira. É também apaixonada pela Cultura e pelo mundo das Artes (performance, música e literatura), tentado sempre olhar para lá do que se vê. Actualmente estuda Comunicação e Cultura na Faculdade de Letras.
Margarida Henrique

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