Conferência “Why Bodies Matter” - Judith Butler // Fotografia por Alípio Padilha

Conferência “Why Bodies Matter” de Judith Butler

A obra Gender Trouble nasceu em 1990 pelas mãos da autora e filósofa norte-americana Judith Butler. 25 anos depois, a celebração do aniversário da obra deu-se em Portugal através de um ciclo de conferências, espectáculos, entre outros eventos, cujo nome é o mesmo que o livro – Gender Trouble. Enquanto cabeça de cartaz, Judith Butler viajou para a ocidental praia lusitana e discursou numa conferência intitulada “Why Bodies Matter?”.

Life is more livable when you are not confined to categories that do not work for us, or categories that are imposed on us and take away our freedom.”

Judith Butler, que poderia dispensar apresentações, tem agora 59 anos e desde 1990 que põe o mundo a pensar acerca da teoria queer e feminista, quer por leccionar na Universidade da Califórnia, Berkeley, quer pelas inúmeras obras que escreveu ao longo da sua vida. Obras como Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity (1990), Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex (1993) e, mais recentemente, Undoing Gender (2004) vieram revolucionar os modos de pensar os corpos, o género e a performance do mesmo.

Conferência “Why Bodies Matter” - Judith Butler // Fotografia por Alípio Padilha
Conferência “Why Bodies Matter” – Judith Butler // Fotografia por Alípio Padilha

Butler começou o seu discurso afirmando que a sua obra Gender Trouble, que ganhou vida própria para além da autora ao longo dos anos, formula questões como: O que é o género? Como pensar a sexualidade? Como é que pensamos a materialidade do corpo? Tendo em conta esta última questão, muitxs afirmam que a materialidade do corpo está relativa ao sexo e à sua função reprodutiva (e portanto relativo ao binómio Homem/ Mulher). No entanto, esta é uma forma redutora de ver e pensar a sexualidade do corpo. Basta pensar que nem todos os corpos sexuados são necessariamente reprodutores, pelos mais variados factores como a idade, infertilidade, porque simplesmente não querem reproduzir-se, entre outros. Ao tirar todas as pessoas que fazem parte deste espectro, estará a dizer-se que esses corpos, que não satisfazem a função reprodutiva, não são sexuados?

“Bodies live on, sometimes as a living being, sometimes not”

Judith Butler acrescentou ainda que existe uma falha no modo de ver o corpo como um ser vivo. Um corpo vivo vive dentro de um contexto, é um campo dinâmico de relações, é interdependente. Então, como é que pessoas não-binárias, minorias sexuais, que não magoam ninguém por existirem, normalmente não são reconhecidxs ou mesmo desconhecidxs? Corpos, que sofrem insultos, assédio, preconceito cultural, violência policial, discriminação económica, vivem na sombra. Mas são também estes corpos, estas pessoas, a comunidade LGBTQI+ que emergiu das sombras para a luz, tornando-se visíveis e, mais importante, vivíveis, através das batalhas que travam constantemente.

Conferência “Why Bodies Matter” - Judith Butler // Fotografia por Alípio Padilha
Conferência “Why Bodies Matter” – Judith Butler // Fotografia por Alípio Padilha

Acerca da performatividade do género, Judith Butler declara que as normas sociais, quase obrigatórias, nos fazem ser de um género ou de outro num binarismo restricto – “There is no gender without the reproduction of norms”-. Ser-se alguém de um género não-binário tem um custo, pelo facto de serem as normas de género que determinam os modos como se pode ou deve aparecer um público, que determinam quem está mais protegidx pela lei, pela polícia ou instituições. Pode, então, falar-se de reconhecimento social: o campo da aparência não admite todxs. Quais são os humanos que contam como humanos? Quais são as pessoas que podem respirar e mover-se livremente em espaços públicos e privados? A normatividade não admite práticas sexuais, orientações sexuais, géneros para além daqueles que estavam já previamente estabelecidas.

“Let us continue to be responsive, even when it seems we may become overwhelmed, even when it seems that that is no hope, for in responding to what we see, responding to what happens to others, responding to the conditions in which precarity becomes more and more the norm. We stand the chance to be and to remain animated creatures, animated and thinking, with desire, hope, rage and sorrow. We keep the senses alive, so we live on as the model lives we are and we deserve to be.”

Margarida Henrique

Margarida Henrique

Margarida Henrique nasceu em 1994 e vive em Mafra. Desde cedo que se admite como feminista, lutando contra o preconceito e as convenções sociais através da sensibilização e “invadindo o mundo masculino” do desporto com a prática de Capoeira. É também apaixonada pela Cultura e pelo mundo das Artes (performance, música e literatura), tentado sempre olhar para lá do que se vê. Actualmente estuda Comunicação e Cultura na Faculdade de Letras.
Margarida Henrique

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