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Intersexo: corpos fora do binário

Intersexo é o termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não parece encaixar nas definições típicas de fêmea ou macho. Muitas vezes, este termo é associado com o hermafroditismo, em que se pressupõe pénis/testículos e vulva igualmente desenvolvidos; uma impossíbilidade fisiológica.

[Nota de autor: Neste artigo vão ser abordadas as questões intersexo mais visíveis fisicamente, de forma a estar subordinado ao tema “Beach Bodies e Body Positivism”. É importante referir que nem todas as condições intersexo são visíveis no corpo/genitais, sendo que essa ideia é resultante de fetichização por parte dos meios pornográficos mainstream. Novamente se vão usar as designações “fêmea”/“macho” em termos de morfologia científica de binário clássico. Lamentamos possíveis ofensas à identidade de género dx leitorx.]

Intersexo é o termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não parece encaixar nas definições típicas de fêmea ou macho. Muitas vezes, este termo é associado com o hermafroditismo, em que se pressupõe pénis/testículos e vulva igualmente desenvolvidos; uma impossíbilidade fisiológica.

Embora a ideia da população comum seja de que este tipo de alterações sejam perfeitamente visíveis nos genitais após o nascimento, a verdade é que muitas não o são. Sim, existem casos em que os genitais apresentam morfologia intermédia mas estes não são os únicos. Muitas vezes, o indivíduo chega à idade adulta sem saber que é intersexo, e apenas o sabe quando faz exames para tentar entender distúrbios hormonais ou causas de infertilidade. Nestes casos, poderão ser os orgãos internos que apresentam diferenças – alguém com vagina e útero, mas com testículos internos em vez de ovários; ou então mutações em genes completamente não relacionados que provocam uma imunidade às hormonas sexuais, como um alelo do cromossoma X, em que x portadorx possui uma vagina cega, sem útero, e os testículos (se presentes) estão na labia ou inclusos no abdómen.

Mas a verdade é que não é a Natureza que escolhe onde o binário acaba e o intersexo começa. São os humanos que o fazem. Por isso, infelizmente, a comunidade médica criou o falómetro, a escala que determina o tamanho médico “aceitável” dos genitais de um recém-nascido.

phallometer

Supostamente, um clítoris aceitável terá entre 0.2cm e 0.85cm, e um pénis o será a partir dos 2.5cm. Tudo o que tiver um tamanho fora deste standard poderá ser cirurgicamente “corrigido” com o consentimento dos pais. Tudo pouco tempo após o nascimento, sem dar tempo à criança que cresça e descubra o seu género e conforto naturalmente e possa (ou não) optar por cirurgia elx mesmx.

Mas além destas diferenças físicas mínimas, existem duas variações cromossómicas de relevo: o síndrome de Turner, e o síndrome de Klinefelter. Existem também situações de mosaicismo, em que algumas células apresentam um conjunto de genes e outras não; o que pode, ou não, ser visível físicamente.

O Síndrome de Turner ocorre 1 a cada 5000 nascimentos, quando há uma monossomia do cromossoma sexual, ou seja, o indivíduo possui apenas um cromossoma X (representado como X0). O mecanismo de dosagem génica é bem patente, com uma “feminização” do corpo e desenvolvimento físico incompletos.

Turner
Turner e suas manifestações. (Clique na imagem para expandir)

O Síndrome de Klinefelter ocorre a cada 500 nascimentos, com a inserção de um cromossoma X extra (representado como XXY), que gera indivíduos altos e magros, com a possibilidade de um ligeiro atraso mental e tendência para a osteoporose.

Klinefelter e suas manifestações. (Clique na imagem para expandir)

As combinações XXX e XYY produzem indivíduos saudáveis e férteis. Embora seja um mito urbano muito difundido , não existem provas que corroborem que o genótipo XYY esteja ligado a um comportamento mais violento.

turner-and-Klinefelter-Syndrome
Image source : tokyo-med.ac.jp

Fontes:

Noémia Santos

Noémia Santos

A Noémia Santos é uma estudante de Biologia demasiado minimalista para ter uma bio.
Noémia Santos

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2 thoughts on “Intersexo: corpos fora do binário”

  1. divulgar a realidade plural dos sexos e das identidades sexuais e torná-las bem presentes no espaço público é fundamental para a luta contra os tabus, a discriminação e a repressão

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