"Girl Gang Knuckles // Fierce babe network" / ilustração de: onesailonesea

A minha pele, as minhas tatuagens

O meu corpo de Mulher já é geralmente um convite para comentários e olhares que me deixam desconfortável. A minha indumentária – seja ela qual for – já é geralmente um convite para comentários e olhares que me deixam desconfortável. A minha personalidade e a minha necessidade de dizer o que tenho a dizer já é geralmente um convite para comentários e olhares que me deixam desconfortável. O facto de pintar o cabelo já é geralmente um convite para comentários e olhares que me deixam desconfortável. As minhas tatuagens expostas – são a cereja no topo do bolo patriarcal, que me fazem querer explodir com todos os pressupostos e estereótipos sociais.

É Verão e os calções e as saias são suficientemente curtas para serem agradáveis. Os biquínis expõem demasiado. Os fatos-de-banho fazem-nos parecer pudicas a pedi-las. As tatuagens são sinónimo de desesperadas por homens. Falta de educação. Rebeldia evidente. Uma loucura intrínseca. Uma liberdade provocante. Eu agradeço a preocupação relativamente ao que decido fazer no meu corpo, mas eu não pedi a opinião de ninguém. Agradeço imenso a forma como isso me expõe e as lutas constantes que tenho para não acabar num espaço com pessoas incomodadas com a minha imagem. Lutas familiares ou lutas públicas. Os julgamentos alheios podem – não só podem como afectam a nossa liberdade.

"Girl Gang Knuckles // Fierce babe network" / ilustração de: onesailonesea
“Girl Gang Knuckles // Fierce babe network” / ilustração de: onesailonesea

É Verão e está imenso calor. A praia parece-me um excelente opção, a primeira coisa que sai do armário (além de mim, constantemente) são uns calções curtos. O biquíni é novo e super bonito. As tatuagens – essas fazem parte de mim e obviamente que me acompanham. A praia não só é uma opção como é um plano que ponho em prática. As consequências? As famílias que dizem às crianças para não fazerem o mesmo. Os rapazes adolescentes que perguntam se podem tirar fotografias às tatuagens. Os homens que pedem se podem ver de perto. Os mais velhos que perguntam o que está lá escrito. Tens alguma escondida? Acompanhando a frase, uma cara de engate. Um engate que desrespeita e assusta.  

O que dói não são apenas os comentários machistas e sexistas – é a forma como isso influência uma sociedade. As figuras parentais que raramente concordam. Que simboliza vergonha. Que pedem para tapar um bocadinho. Ou é o tio, ou o vizinho. É feio, parece mal. O mundo laboral que te lê como alguém sem educação e responsabilidade. Não existe intelecto se existirem tatuagens. Quantas mais forem, mais irresponsável és. O que existe é um convite a um julgamento constante que justifica a descriminação e o abuso que se sofre sempre que não existe um casaco ou umas calças para te esconderes.

Cândida/espiga design // www.espigadesign.net/
Cândida/espiga design // www.espigadesign.net/

É Verão e está imenso calor. Se fores rebelde como grita o teu corpo a esta sociedade: atira-te aos lobos e faz do teu corpo aquilo que achares melhor. Se não conseguires (nem tens que conseguir, porque não nos cabe a nós ter força para contornar o que nos faz mal) lidar com os olhares pejorativos e os convites que roçam o abuso, compra um super fato feminista de mergulho – e afoga o sexismo absurdo que nos faz sentir culpadas pela liberdade do nosso próprio corpo – depois faz topless sem medo e com um corpo colorido.

Marta Guerreiro

Marta Guerreiro

20 anos, actualmente emigrada em Londres na procura de futuro académico mas também na procura da possibilidade de liberdade social. Amante da escrita. Activista e feminista.
Marta Guerreiro

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4 thoughts on “A minha pele, as minhas tatuagens”

  1. Tenho tatuagens e 46 anos. As primeiras, mais pequenas, são antigas, mas tenho agora umas mais visíveis e a minha experiência é geralmente boa. Claro que olham , mas elas também são feitas para olhar. Se o olhar é reprovador, não sei. Sinto sobretudo curiosidade. Não me preocupam os homens, sinceramente é igual com ou sem tatuagens e eu sou a primeira a dizer que tenho mais umas escondidas (não tenho!). Se calhar é por ter outra idade, mas nunca ninguém me fez comentários desagradáveis ou desrespeitosos, muito menos outros pais. Os meus filhos gostam 🙂 Tudo isto para dizer que ainda há esperança e sendo óbvio que as tatuagens diferenciam quem as tem (é essa a sua origem aliás) nem sempre a reacção é negativa.

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