I Encontro de Feministas Negras em Portugal | Fotografia de Marlene Nobre

Feministas Negras Portuguesas reúnem em Lisboa

A Plataforma FEMAFRO, Organização de Mulheres Negras, Africanas e Afrodescendentes em Portugal, organizou no passado dia 30 de Abril de 2016, no MOB – Espaço Associativo em Lisboa, o 1º Encontro de Feministas Negras em Portugal.

Numa sala completamente cheia, com perto de cem pessoas, dezenas de mulheres partilharam experiências e reflexões sobre temáticas ligadas ao racismo, machismo, colorismo, lesbofobia e questões queer. Foram várias as intervenções num local onde as mulheres tiveram total liberdade para ouvir, falar e questionar.

As mulheres receberam a plataforma como um projeto indubitavelmente necessário e muitas o elogiaram. “É importante porque existe racismo e existe discriminação e é como um tabu”, afirma Alexandra Santos, “depois porque é para mulheres, pessoas que sofrem discriminação ou são oprimidas por determinada coisa por serem mulheres”. Para a jovem de 29 anos, o facto de a Plataforma FEMAFRO defender a intersecção entre diferentes lutas contra opressões é uma mais-valia, porque acabam por falar “de duas coisas que são mais ou menos visíveis, mais ou menos invisíveis, de que se fala, mas não se fala”.

Tendo como mote a década internacional das/os afrodescendentes e a década internacional da mulher africana, como foi destacado no início do encontro, a Plataforma pretendeu dar visibilidade às mulheres negras e questionar o seu papel histórico na sociedade portuguesa.

I Encontro de Feministas Negras em Portugal | Fotografia de Marlene Nobre
I Encontro de Feministas Negras em Portugal | Fotografia de Marlene Nobre

Para Luzia, a mulher negra foi limitada “a uma invisibilidade em espaços de poder, espaços de arte, e em espaços de estar sociais privilegiados”. “É muito diferente acostumar a ver uma mulher negra no shopping a limpar do que ver essa mulher negra como professora na universidade ou como jurista”, explica. “Quando uma mulher negra se torna ministra e causa incómodo é justamente pelo lugar onde nos colocaram sempre, no lugar de limpar o chão para o branco”, continua Luzia. Por este motivo, Luzia, de 37 anos, acredita que é urgente discutir temáticas que trabalhem as especificidades da mulher negra na sociedade portuguesa.

Para Beatriz Gomes Dias, a divisão é necessária porque “quando estamos a discutir as questões das mulheres estamos a discutir as questões das mulheres brancas”, conforme explica a professora de 45 anos. “Não estamos a discutir as questões da desigualdade que é ampliada pela cor da pele”, continua. “As mulheres brancas têm lutas de direitos mas não estão a lutar para que haja uma representação social diferente. As nossas lutas não são idênticas porque têm a ver com a nossa história”, completa Paula Almeida. “A base histórica é completamente diferenciada e daí temos pontos que não nos tocam da forma idêntica”.

I Encontro de Feministas Negras em Portugal | Fotografia de Marlene Nobre
I Encontro de Feministas Negras em Portugal | Fotografia de Marlene Nobre

É como andar. Nós todos aprendemos a andar mas aprendemos de forma de forma diferente”, diz Juliana Penne. A jovem de 21 anos mostra-se contente por finalmente haver um “espaço de respiração” e partilha para as mulheres negras. Afinal, “uma mulher negra de forma geral tem um percurso diferente de uma mulher branca”.

Para Paula Almeida, de 37 anos, este projecto vai levantar uma parede para proteger as comunidades. “Nós temos um racismo institucional, um racismo crónico” conta Paula. “E muitas vezes parece que o outro lado tem mais poder”.

Mulheres negras, africanas, afrodescendentes e brancas reuniram-se para decidir quais seriam as bases de uma plataforma que está agora ainda a dar os primeiros passos. Sem hierarquias e em aberto, este projecto pretende acabar com pouca representação da mulher negra ou, como disse Paula Almeida, dar-lhe uma voz que não existia.

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