Criança e consentimento: lições para a vida

Criança e consentimento: lições para a vida

Uma das piores sensações de sempre que o meu cérebro ainda não conseguiu apagar foi a de ver o meu espaço pessoal invadido e não ter como escapar.

Sentir braços à minha volta, ser beijade na cara, sentir o bafo a álcool e dentro de mim o nojo e a revolta a misturarem-se e a crescerem dentro de mim como uma mistura explosiva, enquanto me esforçava por manter uma expressão neutra, por não deixar escapar uma palavra que fosse; já tinha a minha liberdade de expressão comprometida há muito tempo.

Já nas primeiras vezes que isto ocorria tentava desviar-me, dar a entender a minha recusa sem dizer não explicitamente – com raiva, com nojo, com autonomia como pessoa segure dos meus limites pessoais.

Podia ser uma história sobre qualquer tipo de assédio, mas é uma das piores experiências que já tive com o meu pai. E por isso mesmo – por ele ser o meu pai – não havia limites que ele respeitasse. Vim a compreender que no ponto de vista de muitos pais [e mães] (por ouvir o eco de algumas das minhas experiências em conversas com pessoas amigas), ainda há a ideia de autoridade sobre uma criança, até quando ela cresce e se torna adolescente e mesmo a partir daí, por vezes essa autoridade continua a existir, eclipsando a individualidade de filhe, sobrepondo as necessidades do parente.

É um contraste imenso, ser feminista e observar estes tipos de prisões em que as crianças e adolescentes ficam sujeites, consoante a sorte com os pais que têm. Muitas vezes ver as crianças obrigadas a dar e receber beijos e abraços, contra a sua vontade, como se fosse absurda a ideia de uma criança ter consciência daquilo que lhe é confortável ou não… Coisas que reconhemos a pessoas adultas.

Na minha experiência, consoante a vontade dos meus pais, ora eu tinha direito a ser tratade como adulte, ora eu tinha de me submeter à autoridade deles. Esta autoridade tem uma razão de ser quando as crianças não conseguem tomar decisões benéficas para si próprias a longo prazo, como não comer demasiados doces, não faltar à escola, entre outras coisas. Não consigo compreender como os pais levam isto a um extremo de negarem a uma criança, adolescente, pessoa adulta a sua autonomia e a sua afirmação própria, do seu espaço físico, mental, emocional.

Por vezes, sinto-me absolutamente violade pelas invasões das pessoas que eram as encarregadas de assegurarem o meu bem-estar e a minha integridade a todos os níveis.

Quando penso naquilo que o feminismo defende acima de tudo, a autonomia sobre o meu corpo, as minhas acções, o direito a ter o meu espaço pessoal privado e inviolável, o direito a ser respeitade pela minha existência, desdobrada em múltiplas identidades, e penso nas minhas experiências – e nas experiências que já ouvi de outras pessoas – questiono-me como é possível ainda existir tão pouca atenção para um assunto tão importante.

Trata-se de proteger uma nova vida que nasce, um ser humano que vai crescer e interiorizar logo desde o início aquilo que vir no ambiente ao seu redor, e isso coloca uma responsabilidade enormíssima nos ombros de quem o rodeia, especialmente quem tiver a responsabilidade de cuidar dele e o educar.

Magoa-me profundamente ver que há pessoas que não compreendem o peso da influência que terão nes filhes, que não compreendem a importância de logo desde o início incutir esses ideais feministas, para que cresçam pessoas mais seguras de si mesmas, mais capazes de se relacionarem com outres de forma saudável, porque ao mesmo tempo que aprendem a conhecerem e a comunicarem os seus limites também aprendem a ter consciência e a respeitar os limites de outres à sua volta. E isso é tão mais importante, especialmente se se identificarem fora dos grupos privilegiados.

Porque vão ter de defender esses limites com unhas e dentes, lutar mais e mais pelos seus direitos, porque vão ser discriminades, desprezades, atacades, remetides a manter as suas identidades “privadas”.

Porque ninguém deveria de ter de passar por isso na sua própria casa, ver os seus espaços violados, as suas reações silenciadas pela força maior de não causar conflictos, as suas emoções ignoradas, desvalorizadas ou tornadas inválidas – tudo para dar lugar à auto-desresponsabilização dos pais, presos nas intenções das suas acções e negando as consequências prejudicias que venham a acontecer.

E fundamentalmente – porque uma relação entre parente e filhe não é diferente que qualquer outra relação entre duas pessoas: deve assentar em bases de respeito, comunicação, honestidade e consentimento.

Marta Cardoso

Marta Cardoso

Marta, pessoa oriunda do Porto, vive atualmente em Lisboa, onde estuda Engenharia Informática. O sonho é continuar a ser uma pessoa extremamente nerdy e ter o maior número de gatos possíveis, para além de ver legislação inclusiva a pessoas não-binárias e direito à auto-determinação de género. Transfeminista, ainda com muito por aprender, defende a empatia para com o sofrimento de outras pessoas e abordagens interseccionais aos diversos problemas na sociedade patriarcal.
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