Partos (des)humanizados e períneos (in)felizes

Partos (des)humanizados e períneos (in)felizes

A presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez (APDMG), Sara do Vale, afirmou ao jornal O Observador que a violência obstétrica é “tudo o que é feito contra a vontade da mulher ou sem ela ter sido consultada.

Pode considerar-se violência obstétrica a violência física, humilhações, abusos verbais, procedimentos médicos não consentidos ou consentidos através de manipulação, falta de confidencialidade e esclarecimentos, recusa em administrar analgésicos ou a administração não requisitada de fármacos, toda a negligência que pode levar a complicações evitáveis e que podem pôr em risco a vida da pessoa que está a parir e dx bebé.

Dois procedimentos médicos feitos com maior risco são a episiotomia e a manobra de Kristeller.

A episiotomia consiste na incisão cirúrgica do períneo com o objectivo de aumentar a abertura vaginal durante o parto. Esta prática existe desde 1741 (sim, há mais de 200 anos!) e continua a ser usada recorrentemente (em cerca de 70% dos partos em Portugal). A OMS recomenda a episiotomia apenas em casos de sofrimento fetal, parto instrumentalizado ou complicado e no caso de lesão iminente do períneo, para evitar uma lesão maior. Também a Ordem dos Enfermeiros Portuguesa ressalta “a importância de mudar comportamentos e de capacitação dos profissionais de saúde” para a “utilização de técnicas não cirúrgicas comprovadas como a massagem pré natal e calor no períneo”. Na verdade, não existem razões para a se manter esta prática rotineiramente, visto que esta pode aumentar o risco de complicações intra e pós-parto, como por exemplo, de infecções, ruptura grave do períneo, incontinência, fístula rectovaginal e, em casos mais extremos, na morte.

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Momento da expulsão no parto. As linhas a tracejado representam a episiotomia e, logo, o local onde se situa o períneo.

A manobra de Kristeller, apesar de não ser feita tão regularmente, pode ser considerada das técnicas mais agressivas feitas durante o parto. Esta técnica consiste em aplicar pressão na barriga para expulsar x bebé mais rapidamente. A manobra de Kristeller já não é sequer aconselhada em algum caso específico. A OMS questiona e aconselha esta manobra visto que se relaciona directamente com o risco de deslocamento da placenta, hemorragia, ruptura uterina e pode causar fracturas nx bebé e na pessoa que pare. A prática já foi proibida em países como o Reino Unido, mas em Portugal continua a ser usada.

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Manobra de Kristeller – Cartoon

No entanto, não são só estas duas manobras que constituem o conceito de violência obstétrica. Todo o contexto que envolve o parto pode estar infestado de violência dissimulada: desde a falta de informação quanto a partos alternativos (fora do hospital público) e quanto a intervenções que vão ser feitas durante o parto; a pressão para se fazer a expulsão na posição deitada (mesmo que essa não seja a melhor para a pessoa que está a parir); a desconsideração pelos planos de parto, entre muitas outras faltas de respeito.

É verdade que se criam expectativas para o parto e estas podem não corresponder à realidade. O parto não é algo estático e, por isso, pode haver mudanças de direcção a qualquer altura. Porém, é imprescindível que a pessoa que está a parir seja informada, de maneira verdadeira, de tudo aquilo que se está a passar.

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Quando o conforto dxs profissionais de saúde está acima do conforto pela pessoa que pare.

Pede-se axs profissionais de saúde que mantenham os partos humanizados e os períneos felizes.

Margarida Henrique

Margarida Henrique

Margarida Henrique nasceu em 1994 e vive em Mafra. Desde cedo que se admite como feminista, lutando contra o preconceito e as convenções sociais através da sensibilização e “invadindo o mundo masculino” do desporto com a prática de Capoeira. É também apaixonada pela Cultura e pelo mundo das Artes (performance, música e literatura), tentado sempre olhar para lá do que se vê. Actualmente estuda Comunicação e Cultura na Faculdade de Letras.
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