Feministas Pelo Mundo #1 // Maio - Paquistão

Feminismo Pelo Mundo #1 – Paquistão

Paquistão: a coragem das mulheres num inferno patriarcal

Este artigo inaugura uma série sobre o Feminismo pelo Mundo. O objetivo é dar a conhecer as feministas espalhadas pelo mundo e a realidade que enfrentam, país a país.

Tudo o que escrevo sobre feminismo e mulheres é, sempre que possível, baseado em informações ou opiniões de mulheres locais, e as conclusões são feitas a partir da leitura de vários artigos de feministas do país escolhido. Os dados mais técnicos são retirados de fontes institucionais ou de livros sobre o assunto.

Esta semana começamos com o Paquistão.

O Paquistão é considerado, estudo após estudo, como um dos piores países para se ser mulher no mundo, pintando uma imagem ingrata de um país onde ser mulher é um pesadelo.

Citando dados recentes, no Relatório Global da Desigualdade de Género de 2015 (feito pelo Fórum Económico Mundial) o país ocupa o 144º lugar entre os 145 países analisados[1]. Mas a situação é muito mais complicada do que uma simples estatística nos pode dizer. O Paquistão é um país de contrastes, muito complexo na sua história e demografia [2]. Existe uma enorme diferença na condição das mulheres entre as zonas rurais e as áreas urbanas, e entre classes sociais. Mesmo assim, a tendência avassaladora é para a quase inexistência da igualdade de género, e para uma qualidade de vida claramente inferior para as mulheres do que para os homens.[3]

Entre as práticas que contribuem para estatísticas tão negativas, os chamados “homicídios de honra” dentro de famílias são talvez os mais mediáticos. Numerosos (cerca de 1.000 mulheres assassinadas por ano[4]), as vítimas são, normalmente, mulheres que casam contra a vontade da família, que procuram um divórcio ou que são vítimas de violação[5].

Muito mais comuns são práticas de casamentos “arranjados” ou infantis. Cerca de 30% dos casamentos nas áreas rurais do país são acordados sem considerar a vontade da mulher[6], e cerca de 50% dos casamentos a nível nacional envolvem raparigas menores de idade[7].

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Feministas Pelo Mundo #1 // Maio – Paquistão

Mas a submissão da mulher vai muito além do casamento. Não se espera que as mulheres sejam produtivas além do trabalho doméstico, com cerca de 74% impedidas de participar na economia formal do país [7], e apenas 16% que se possam considerar como “economicamente ativas” [8].

Previsivelmente, a cultura patriarcal também se reflete nos dados relativos à educação. Cerca de 40% das raparigas e mulheres entre 15 e 24 anos são analfabetas (contra cerca de 20% entre os rapazes e os homens), sendo a educação feminina muito menos prevalente que a masculina em todos os níveis de ensino [9].

Entre 70% e 90% sofrem de violência doméstica, e a violência contra as mulheres – incluindo violações (também assustadoramente comuns) – é considerada “institucionalizada”, gozando frequentemente da “passividade e, por vezes, aprovação explícita por parte do Estado” [10]. Apesar de progressos nos últimos anos, a ação das autoridades é considerada inútil para lidar com estas situações, e a legislação é vista como inadequada[11][12].

E a atuação oficial tem, infelizmente, o apoio de um grande setor da sociedade, sendo a mentalidade mais comum a de que as mulheres “não merecem uma educação, um trabalho ou uma existência fora da esfera doméstica” [12].

Uma realidade ingrata

A situação triste que se vive no Paquistão é ainda mais chocante quando percebemos que tanto o passado como o presente do país estão cheios de mulheres que lutaram e lutam pelos seus direitos, e organizações mais que conceituadas com décadas de militância feminista.

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Fatima Jinnah

O feminismo não é uma novidade no país. Por exemplo, as ações de Fatima Jinnah, uma das personagens fundadoras do Paquistão (independente em 1947) asseguraram uma perspetiva feminina na construção do novo estado, e lançaram as bases para a fundação em 1949 (pela “Mãe do Paquistão”, Ra’ana Liaquat Ali Khan) da que ainda hoje é das mais prestigiadas e ativas ONGs paquistanesas pelos direitos das mulheres: a All Pakistan Women’s Association (APWA) [12].

Na sua história recente, o país alternou entre períodos mais liberais e outros mais opressivos. Como outros países (Irão, Turquia, etc.) também o Paquistão já viveu uma época em que a sociedade parecia ser mais progressista do que é hoje (como nos anos 70)[13], mas esse caminho foi barrado por revoluções ou golpes de estado conservadores. O ditador Zia-ul-Haq (no poder entre 1977 e 1988) ficou notório pela legislação retrógada que implementou contra os direitos das mulheres.

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Ra’ana Liaquat Ali Khan em Washington DC a falar com mulheres.

Mas mesmo nesses tempos mais perigosos, as mulheres não recuaram. Pelo contrário: em resposta às leis opressivas do regime de Zia-ul-Haq, os anos 80 viram o nascimento de inúmeras organizações feministas, com multidões de mulheres a saírem às ruas do país para lutarem pelos seus direitos, contra os “4 M” (Men, Money, Mullah and the Military[14]) [15]. Várias ONGs e grupos feministas ativos hoje no país têm a sua origem nesses anos de repressão e resistência crescente.

Mas apesar de toda esta riqueza histórica, da coragem que as mulheres têm demonstrado desde o início da sua história e da óbvia necessidade de ativismo feminista no país, o facto é que, fora dos círculos feministas, a opinião mais comum entre os paquistaneses é de que o Feminismo é “desnecessário” e uma imposição ocidental que não tem lugar nas culturas do Paquistão [16][12].

Islão e secularismo

A paquistanesa Mehreen Ovais – baseado-se no trabalho da historiadora Margot Badran – identifica duas escolas de pensamento feminista presentes hoje no Paquistão: ”feministas islâmicas modernas”, que tentam fazer com que quem interpreta o Islão de forma opressora se foque nos aspetos da religião que consagram direitos e importância às mulheres (e que têm mais impacto nos setores mais pobres e rurais da sociedade); e “feministas seculares”, que vêm o feminismo como parte integral dos Direitos Humanos, não sujeitos à aprovação religiosa. [16][12]

Lendo o que feministas paquistanesas escrevem [16] [15] [12], chegamos à conclusão que esse conflito ocupa um lugar importante no discurso feminista no Paquistão, e que a relação entre as duas correntes não é a melhor, com a vertente “islâmica” a acusar o movimento “secular” de perpetuar “o mito da mulher muçulmana como vítima” e de influências ocidentais “simplificantes”, e com a vertente “secular” a responder que lutar pela laicização da sociedade é um passo fundamental que não se pode ignorar.

Mas não me atrevo a mergulhar mais neste debate. É um conflito demasiado complexo, com opiniões muito contrastantes e condicionadas pela cultura e religião dxs intervenientes (incluindo a minha), e que como tema mais subjetivo me ia obrigar a opinar sobre o assunto.

Quem é feminista no Paquistão?

O Paquistão foi o primeiro país muçulmano a eleger uma mulher primeira-ministra – Benazir Bhutto, em 1988. Naturalmente, a chefe de governo rapidamente se transformou num ícone feminista no país [17]. Infelizmente, muitxs são da opinião de que Bhutto pouco fez para melhorar a condição das mulheres no seu país [18], e vários movimentos feministas recusaram apoiá-la nas suas campanhas políticas.

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Benazir Bhutto

Mas é fácil encontrar hoje no país heroínas feministas menos controversas. Podemos olhar para o número considerável de ONGs focadas especificamente nos direitos das mulheres que atuam hoje no Paquistão, todas fundadas e lideradas por mulheres. Já citei a mais antiga (a APWA), que desenvolve programas tanto a nível da maternidade, nutrição e escolaridade, como de formação profissional para a inserção das mulheres no mercado de trabalho; mas muitas mais desenvolvem programas de igual importância, como a Blue Veins, que promove programas de mudança social em apoio às mulheres e pessoas trans[19].

Algumas organizações atuam sobre problemas específicos, como a reputada WAR (Guerra Contra a Violação)[20] e a Society for Appraisal and Women Empowerment in Rural Areas (SAWERA) que, como o nome indica, se foca nas mulheres das zonas rurais do país [21]. Outras desenvolvem um ativismo feminista explicitamente mais político, como a Aurat Foundation[22] e a Shirkat Gah Women’s Resource Center[23].  Historicamente, a mais proeminente entre estas é a Women’s Action Forum, que liderou os protestos contra as leis de Zia-ul-Haq, e que ainda hoje é dos grupos feministas mais ativos no Paquistão [24].

Outros grupos atuam através das artes e dos média, como a Tehrik-e-Niswan, que promove e realiza eventos culturais feministas [25], e o Women Media Center, que através de treino e formação visa aumentar a presença feminina e a educação sobre as mulheres entre os jornalistas do país [26].

Mas o ativismo não se limita às organizações. Em certos casos, lutas pessoais que normalmente não seriam conhecidas levaram mulheres a levantar a voz pelos seus Direitos, tornando-as símbolos da luta de muitas outras. Por exemplo, Mukhtar Mai, vítima de uma violação de grupo em 2002, desafiou o que as tradições e as autoridades esperavam dela (o suicídio) e processou os homens que a violaram, levando-os a tribunal. E claro, temos o caso de Malala Yousafzai, cujo ativismo que todos conhecemos tem merecido honras e reconhecimento por todo o mundo.

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Malala Yousafzai

Existem muitos, muitos mais grupos, e ainda mais mulheres que lutam diariamente pelos seus direitos. Muitas, infelizmente, perderam a vida nessa luta. E se Malala sobreviveu, a história recente do Paquistão está repleta de mulheres assassinadas pela sua militância: Zil-e-Huma Usman, em 2007; Fareeda Afridi (co-fundadora da SAWEDA), em 2012; Perween Rahman, em 2013; Sabeen Mahmud, em 2015 [17]; e com certeza inúmeras outras, cuja morte foi abafada ou menos mediática fora do país.

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Sabeen Mahmud

Mas não quero acabar este artigo numa nota negativa. A realidade é triste, e o futuro não parece muito brilhante. Mas a verdade é que existe progresso. Lento e acidentado, mas existe: a pouco e pouco as leis vão mudando, e as mentalidades também. E isso só é possível graças à luta e ao enorme sacrifício de todas estas mulheres, que não descansam nem vão descansar enquanto não viverem em igualdade e liberdade no seu país.


Notas: 

  1. http://bit.ly/22rgAYC
  2. Explicar a composição étnica e religiosa do país seria copiar o que a Wikipédia diz. Para xs que não conhecem a realidade do Paquistão, sugiro a leitura por alto do artigo na Wikipédia sobre o país, uma vez que é normal ter muitas ideias falsas sobre o mesmo.
  3. Recordo que todos estes fatores variam consideravelmente de região para região, consoante o desenvolvimento social e económico da zona, e é possível uma mulher, no contexto certo, viver a sua vida no Paquistão sem nunca entrar em contacto direto com alguns dos problemas aqui expostos. Nunca devemos generalizar estas situações, sob o risco de associarmos o que acontece com a religião ou cultura do país (em vez de olhar para os fatores que comprovadamente contribuem para a sua existência, como a pobreza, a falta de acesso à educação e o impacto de conflitos armados).
  4. Embora se acredite que o número seja muito maior. http://hbv-awareness.com/statistics-data/
  5. http://bit.ly/22rgm3D
  6. http://bit.ly/22rgQH7
  7. Dados de cerca de 2013. http://bit.ly/22rgrUT
  8. Dados de 2005:  http://bit.ly/22rgJv0
  9. http://uni.cf/22rh7K3
  10. http://bit.ly/22rgxvL
  11. http://bit.ly/22rgxvU
  12. http://nyti.ms/22rgShY
  13. http://www.dawn.com/news/1125708 Artigo de um homem que – surpresa! – nos diz que o “Primeiro Feminista Radical do Paquistão” foi um homem. Ignorando isso (que é obviamente falso), é útil porque menciona a análise de uma mulher – a produtora de televisão Shireen Pasha – sobre as tendências sociais nas décadas de 70/80).
  14. “Homens, Dinheiro, Mullahs (autoridades religiosas) e Militares”. Slogan comum entre as feministas paquistanesas nos anos 80 [15].
  15. http://www.thefeministwire.com/2012/10/feminists-in-pakistan/
  16. http://tribune.com.pk/story/764036/feminism-in-pakistan-a-brief-history/
  17. https://www.vice.com/read/meeting-pakistans-radical-feminists
  18. http://www.cbsnews.com/news/bhuttos-mixed-legacy-for-womens-rights/
  19. http://www.blueveins.org/
  20. http://www.war.org.pk/
  21. http://www.sawera.pk/index.php?page=about
  22. http://af.org.pk/
  23. http://shirkatgah.org/
  24. http://www.wluml.org/contact/wrrc/content/womens-action-forum-waf
  25. http://www.tehrik-e-niswan.org.pk/default2.asp?active_page_id=74
  26. https://www.facebook.com/womenmediacenter/
Rafael Ferrero-Aprato

Rafael Ferrero-Aprato

Luso-italiano apaixonado por história e política. Amante das esquerdas mais assustadoras. Por agora ainda estudante de comunicação social, com um pé na política internacional. Genealogista nos tempos livres.
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