Arte de Cécile Dormeau

Leva-me o útero. Deixa-me a alma.

Está a acontecer uma enorme falta de valores. Não que não estivesse a acontecer antes mas neste momento é fácil termos mais contacto com ela. Não quero escrever isto de uma forma jornalística e/ou informativa. Quero escrever isto revoltada, emocionada e sensibilizada. Que as minhas palavras sejam as palavras de uma Mulher – uma ex vítima e uma actual sobrevivente.

Arte de Cécile Dormeau
Arte de Cécile Dormeau

Trinta. Trinta e um. Trinta e dois. Trinta e três. Nem que fosse apenas um. Nem que fossem cinquenta. Dezesseis anos. Dezessete anos. Nem que fossem quatro anos. Nem que fossem quarenta anos. Nem que fossem noventa anos. Brasil. Índia. Portugal. Desmaiada ou acordada. Todas as violações são violações. Todas as agressões são agressões. Aquilo que estes trinta homens nos podem mostrar é que os violadores não são pessoas doentes. A menos que por magia trinta homens estivessem no mesmo espaço e tivessem os trinta essa característica em comum: serem doentes. A única característica que têm em comum é serem homens. Todos os homens são potenciais agressores. Esta é a parte em que os homens ficam ofendidos e dizem: eu nunca violei ninguém. Esta é a parte em que fazer o que é suposto, passa a ser uma excepção. É aqui que dizem que essa generalização é muito ofensiva. Incorrecta. Vejamos: Eu vou na rua é de noite e lá ao fundo vejo um homem a vir na minha direção. Esse homem por acaso é super activista LGBT, é uma pessoa excelente, um namorado que respeita, uma pessoa que valoriza o consentimento é inclusivamente um homem feminista e a única coisa que está a fazer é a ir para casa. Eu não sei quem ele é, só sei que ele é um homem. Só sei das minhas experiências com homens. Só sei das vezes que me tentaram assediar. Vou ficar assustada. A ansiedade aparece. As lagrimas nos olhos. As chaves na mão como arma. Todos os homens são potenciais agressores e todos os homens são opressores. Sim. Quando passam por mim eu não faço ideia do background deles – só do meu. Não me interessa se o homem é de esquerda ou “feminista” – mesmo não sendo propositado eles oprimem como no exemplo que dei anteriormente. Quando alguém nasce com um pénis é socializado de forma machista. No caso de pessoas trans a experiência é outra à medida que crescem e têm vivências e lutas interiores das quais eu não posso falar. No entanto, homens cis têm toda a socialização que incentiva a oprimir – que ensina a exercer o machismo. Mesmo que desconstruam parte disso, não conseguem descontruir o colectivo. Continuam a ser opressores – novamente – como no exemplo em cima. Nós vivemos numa sociedade machista, patriarcal que beneficia os homens. Sejam eles “feministas” ou não. Agressores ou não. São beneficiados. Homens cis podem saber a teoria toda – que se lixe a teoria! Não conhecem o medo. Não têm a experiência. Isso impossibilita saberem o que é caminhar nos nossos pés. 

Arte de Libby Vanderploeg
Arte de Libby Vanderploeg

Não pretendo que as pessoas achem no feminismo a salvação. Não pretendo catequizar ninguém. O que eu quero é que as pessoas procurem sentir empatia pela dor de outras. A dor de qualquer Mulher é minha também. Uma pessoa não fica traumatizada por viver uma situação: o trauma é o espaço durante um acontecimento que decidimos apagar. Por medo. Por dor. Por vergonha. O trauma não é só a violação física – é a violação social. As pessoas que não acreditam. Os homens que se riem. A família que culpa. Os media que falam da saia e do álcool. Uma Mulher nunca é violada apenas uma vez – é violada todas as vezes que é culpabilizada. Todas as vezes que um humorista encontra na violação uma “piada”. Todas as vezes que os discursos despem as Mulheres – objectificando.

Nesta luta temos que ser irmãs. Dar as mãos. O útero. A alma. O que dói numa, dói em todas. Porque todas vivemos numa sociedade que nos oprime. Que nos agride. Todas nós conhecemos uma história de uma Mulher que foi violada. Uma Mulher que sofreu agressões do namorado ou do marido. Todas nós já tivemos medo de ir na rua. Todas nós já ouvimos criticas ao tamanho do decote; ao excesso de maquilhagem; ao álcool que nos pode por em perigo (não pelas consequências óbvias que são de facto perigosas mas porque nos “colocamos a jeito” para nos fazerem mal). Nesta luta temos que ser – Ser. Juntas. Dar as mãos. O útero. A alma. O que dói numa, dói em todas. Porque todas já vivemos mais que qualquer homem. Já tivemos que lutar mais. Esforçar mais. Porque um homem agressor tem direito à liberdade por “falta de provas” – e enquanto os agressores tiverem direito à liberdade, nós não podemos ser livres.

Marta Guerreiro

Marta Guerreiro

20 anos, actualmente emigrada em Londres na procura de futuro académico mas também na procura da possibilidade de liberdade social. Amante da escrita. Activista e feminista.
Marta Guerreiro

Latest posts by Marta Guerreiro (see all)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *